Diálogo e Fortalecimento da Luta Coletiva
Entre os dias 22 e 24 de janeiro, a Aldeia Murutinga, localizada em Autazes, Amazonas, foi palco de um importante encontro que visa promover o diálogo e a formação política junto ao povo Mura. A Oficina Política ocorreu em parceria entre o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e as lideranças das organizações da Resistência Mura, visando fortalecer a luta coletiva e as identidades culturais do povo indígena.
A realização da oficina dentro do território representa um ato significativo de afirmação da identidade e da cultura indígena. Durante o evento, foram abordados temas que contemplam a resistência histórica aos invasores, os desafios atuais e as perspectivas futuras que visam garantir uma vida digna e com direitos assegurados para as novas gerações.
“Realizar uma oficina sobre política dentro do território é um ato de afirmação da identidade e da cultura indígena”, destacou uma das lideranças presentes.
A troca de experiências durante o evento foi fundamental, permitindo que as vozes do povo Mura se unissem em busca de soluções para os desafios impostos por novas estratégias de dominação e colonização. A construção coletiva de conhecimentos é vista como um caminho para fortalecer a consciência política, partindo das vivências reais e dos anseios de um povo que luta para viver segundo suas tradições e modos de vida.
O Papel das Lideranças na Era da Tecnologia
Roni Braga Mura, coordenador da Organização Indígena da Resistência Mura de Autazes (OIRMA), trouxe à tona a importância do conceito de liderança em um mundo cada vez mais tecnológico. Ele enfatizou que ser uma liderança em tempos modernos vai além de características tradicionais, exigindo um conhecimento abrangente sobre questões sociais e ambientais.
“Antes da tecnologia, acreditávamos que apenas pessoas mais velhas e resistentes eram capazes de liderar. Hoje, vemos que a liderança deve englobar um conhecimento mais amplo para evitar a divisão entre o povo”, afirmou Roni, referindo-se às ameaças de exploração da empresa Potássio do Brasil, que oferece compensações financeiras em troca de apoio à exploração mineral no território Mura.
A coordenadora da Organização de Lideranças Indígenas Mura do Careiro da Várzea (OLIMCV), Ana Cláudia Mura, complementou a reflexão ao falar das dificuldades enfrentadas por quem assume a liderança, mas ressaltou que o trabalho vale a pena, pois representa uma luta coletiva. “A vida de liderança realmente não é fácil, mas é uma jornada que traz realizações significativas para o nosso povo”, destacou.
Promessas de Desenvolvimento e Seus Impactos
A chegada da empresa Potássio do Brasil trouxe promessas de emprego e prosperidade, porém, muitos líderes questionam a veracidade dessas promessas. Leandro Braga Mura, da comunidade Murutinga, expressou sua preocupação com as consequências da exploração mineral, que pode minar os conhecimentos tradicionais e gerar vulnerabilidade nas aldeias.
“As pessoas falam que o empreendimento vai trazer muitas coisas boas, mas não é verdade. Os conhecimentos tradicionais estão se apagando”, criticou Leandro, ressaltando que os impactos ambientais e sociais não podem ser ignorados diante das promessas de desenvolvimento econômico.
Dona Francisca Mura, da aldeia Murutinga, também se mostrou preocupada com o futuro da comunidade, alertando sobre os riscos de poluição e degradação que podem resultar do projeto de mineração. “Se isso acontecer, muitas vidas estarão em risco. Sempre defendi a demarcação das terras Mura, que é o que devemos conquistar”, afirmou.
A Demarcação das Terras Indígenas como Direito Fundamental
A demarcação das terras indígenas é um direito garantido pela Constituição brasileira e fundamental para a preservação da cultura e identidade dos povos originários. No entanto, o povo Mura ainda enfrenta desafios quanto ao cumprimento desse direito. A morosidade do Estado brasileiro em reconhecer e demarcar as terras tem gerado inseguranças jurídicas e avanço da degradação ambiental.
Milena Mura, coordenadora da Organização das Mulheres Indígenas Mura (OMIM), declarou que a mineração nos territórios indígenas é um verdadeiro genocídio. “A mineração nos afeta diretamente, trazendo impactos que ameaçam nossas tradições e cultura”, enfatizou.
Durante a oficina, os participantes discutiram a necessidade de união e articulação entre as comunidades para que as reivindicações em defesa do território sejam ouvidas. Ana Cláudia reforçou que a divisão causada pelo avanço da mineradora tem trazido conflitos e inseguranças ao povo Mura.
Juventude Indígena: Engajamento e Futuro
No encontro, a juventude indígena se destacou como um ator fundamental na construção de um futuro sustentável para as comunidades. Os jovens demonstraram interesse e comprometimento em participar ativamente nas discussões sobre os desafios enfrentados e nas lutas pelos direitos indígenas.
Roni Mura destacou a importância de preparar a juventude para assumir papéis de liderança. “Vocês são o futuro e precisam estar prontos para defender nossa comunidade e nosso território”, disse ele, incentivando a participação ativa dos jovens nas mobilizações.
Dirley Mura, um jovem comunicador, expressou a necessidade de fortalecer a participação da juventude nos espaços de decisão, reforçando que “enfrentar os desafios fortalece a juventude e a torna consciente e engajada em sua luta.”
Desafios Eleitorais e a Importância da Conscientização Política
Com as eleições de 2026 se aproximando, os líderes enfatizaram a importância de uma participação crítica e informada nos processos eleitorais. A conscientização sobre o sistema político e os candidatos que realmente defendem os direitos indígenas será essencial para garantir a proteção dos modos de vida e das terras Mura.
O professor Diego Mura ressaltou que entender a estrutura política é fundamental para fazer escolhas adequadas nas eleições. “Precisamos nos preparar para saber votar e escolher representantes que realmente irão apoiar nossas demandas e direitos”, destacou.
A pressão dos poderes econômicos sobre os territórios indígenas é uma realidade que preocupa as lideranças. O secretário executivo do Cimi, Luiz Ventura, lembrou que é necessário estar alerta, pois os interesses externos podem ameaçar a integridade dos povos indígenas. “Precisamos mudar as condições de poder em Brasília e garantir que nossas comunidades estejam unidas e bem informadas para a luta”, concluiu.

