Desastre Sanitário em Caruaru
Trinta anos atrás, Caruaru, no Agreste de Pernambuco, vivenciou um dos mais impactantes desastres sanitários da história do Brasil. Chamado de ‘Tragédia da Hemodiálise’, o episódio teve início em fevereiro de 1996 e causou a morte de pelo menos 60 pacientes do Instituto de Doenças Renais (IDR). Todos foram intoxicados pela microcistina-LR, uma toxina encontrada na água utilizada durante os procedimentos de hemodiálise. O caso chamou a atenção não apenas pela gravidade, mas também por ser o primeiro registro mundial de contaminação em condições semelhantes.
Ao todo, cerca de 140 pacientes foram expostos à microcistina-LR, com a primeira morte ocorrendo em 20 de fevereiro de 1996. Embora o número de óbitos não fosse tão elevado comparado a outras crises de saúde pública, o peso da Tragédia da Hemodiálise foi significativo. A residente da Associação Britânica dos Pacientes Renais, Elizabeth Ward, chegou a descrever a situação como um ‘Holocausto Nefrológico’.
A Escalada das Mortes
Vinte dias após o primeiro falecimento, mais nove mortes foram registradas, desencadeando um alerta sobre o que estava ocorrendo. A situação, no entanto, não foi descoberta de forma imediata, principalmente devido à ineditismo do caso. Profissionais de várias partes do mundo foram mobilizados para investigar o ocorrido, e o Diario de Pernambuco enviou repórteres especiais para cobrir o avanço das investigações.
No dia 9 de março de 1996, o jornal reportou pela primeira vez o problema, com a matéria: ‘Compesa nega que água de Caruaru provoque doenças’. Inicialmente, tanto o IDR quanto a Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) negavam que a água fosse a causa dos problemas de saúde. O médico Bráulio Coelho, representante do IDR, declarou que diversas pessoas apresentaram sintomas como vômitos e fraquezas depois de sessões de hemodiálise. Apesar disso, não havia uma relação diretamente estabelecida entre as mortes e a qualidade da água fornecida.
Suspeitas e Contaminações
Com um total de 126 pacientes renais transferidos para diferentes unidades, incluindo Garanhuns e Recife, as investigações começaram a revelar a gravidade da situação. Um mês após a primeira morte, a análise do corpo das vítimas revelou uma quantidade elevada de cloro, levantando hipóteses sobre possíveis negligências no abastecimento de água do Instituto. As discussões entre o IDR e a Compesa se intensificaram, cada um tentando se isentar de responsabilidade pela contaminação.
O cenário se complicou ainda mais após a décima morte, que não apresentava altos níveis de cloro no corpo, gerando novas especulações sobre leptospirose e contaminação por metais pesados ou agrotóxicos, possivelmente vindos das plantações nas proximidades da Barragem de Tabocas, fonte de abastecimento da clínica. O Diario de Pernambuco realizou entrevistas com autoridades e familiares das vítimas, além de escutar pacientes que faleceram logo após os primeiros relatos.
Investigação e Consequências
Uma investigação policial foi instaurada, e a Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) criou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar as responsabilidades. Reportagens do Diario, datadas de 24 de março de 1996, mostraram que os nefrologistas Bráulio Coelho e Antônio Bezerra Filho reconheceram que as intoxicações eram causadas por elementos químicos mais potentes que o cloro. A equipe médica que acompanhava as investigações também cogitou a possibilidade de contaminações virais.
Na sequência dos eventos, o Diario destacou o sofrimento das famílias que buscavam respostas. Em 29 de março, uma manchete alarmante trouxe a informação de que a hemodiálise havia feito sua 30ª vítima. Nessa mesma edição, os diretores do IDR reconheceram que a água estava contaminada, mas não conseguiram especificar quais substâncias estavam envolvidas.
A Secretaria de Saúde de Pernambuco começou a considerar microalgas como uma possível causa da hepatite tóxica, conforme relatado por Cláudio Duarte, secretário adjunto de Saúde. Ele mencionou que uma especialista em microalgas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a professora Sandra Maria Feleciano, foi chamada para investigar o caso. Esta contaminação por microalgas se tornaria, posteriormente, a explicação mais aceita para o que ocorreu em Caruaru.

