Reflexões sobre a exaustão e a glorificação do trabalho incessante
A crítica à cultura da produtividade tóxica é um tema que merece atenção. Expressões que soam como reclamações, mas que na verdade são autoelogios, estão em alta. Um exemplo disso é a frase “trabalhe enquanto eles dormem”, que encapsula a ideia de que a performance constante é sinônimo de valor pessoal. Essa abordagem não apenas glorifica a exaustão, mas também sugere que sacrificar o sono em nome do trabalho pode transformar alguém em uma versão melhor de si mesmo.
Essa mentalidade se revela prejudicial e, de certa forma, insustentável. Não é à toa que o Brasil se destaca em índices de afastamento do trabalho devido a problemas de saúde mental. A insistência em manter-se sempre alerta e produtivo tem efeitos diretos na qualidade de vida das pessoas. Além disso, é comum notar que aqueles que propõem essas fórmulas de sucesso geralmente se beneficiam de privilégios que os permitem adotar esse estilo de vida sem consequências imediatas.
Quando analisamos a frase “trabalhe enquanto eles dormem”, é possível observar uma distorção importante: ao sugerir que devamos utilizar um momento de descanso coletivo para obter vantagens competitivas, ela desumaniza o sono. Pesquisas demonstram que muitos levam a sério esse tipo de mantra, negligenciando suas necessidades básicas e até mesmo se medicando para permanecer acordados durante as noites de trabalho. Mas, a que preço?
As ideias promovidas por essa cultura de produtividade têm se consolidado como verdadeiros mantras de comportamento, sustentando uma sociedade que valoriza o cansaço como um troféu. A expressão se torna uma “cola” que mantém essa dinâmica em funcionamento, alimentando a lógica da produtividade a qualquer custo. Frequentemente, vemos pessoas se vangloriando por trabalharem em feriados ou durante as férias, como se isso fosse algo admirável. Contudo, isso gera um estigma para aqueles que optam por viver esses momentos de descanso, sendo frequentemente rotulados como preguiçosos ou descomprometidos.
Isso é, sem dúvida, uma distorção da realidade. Ao mesmo tempo em que se celebra o desgaste, muitos se sentem culpados por simplesmente desfrutarem de um tempo livre. Essa situação é um escândalo em si mesma, e as vozes que questionam essa lógica não faltam. Pesquisadores como Byung-Chul Han, autor de “Sociedade do Cansaço”, e Tricia Hersey, que escreveu o manifesto “Descansar é Resistir”, têm chamado a atenção para a necessidade de resgatar o valor do descanso e da convivência.
Quando eu digo “durma enquanto eles dormem”, não se trata apenas de um provocação. É um convite para refletirmos sobre o que isso representa em nossas vidas e sobre o impacto que temos ao reproduzir essas ideias. É crucial reconhecer que, muitas vezes, a necessidade de trabalhar à noite vem de situações desafiadoras e que não há opções fáceis. Essa pressão para se destacar se transforma em um fardo que deve ser carregado como uma “força de guerreiro ou guerreira”.
Contudo, essa dinâmica não se restringe apenas ao sono. O mesmo acontece com a arte, a festividade e os rituais que nos conectam enquanto seres humanos. Ao priorizarmos apenas aquilo que é considerado útil ou produtivo, corremos o risco de comprimir e espremer o tempo que deveríamos dedicar a atividades que nos tornam verdadeiramente humanos. A reflexão sobre a cultura da produtividade e suas consequências é essencial para que possamos encontrar um equilíbrio saudável entre trabalho e vida pessoal.

