O Desafio do Combate ao Sexismo nas Escolas
Piadas sobre o corpo, xingamentos de conotação sexual, compartilhamento de imagens sem consentimento e exclusão de atividades são frequentemente vistos como simples “brincadeiras” no ambiente escolar. Entretanto, especialistas destacam que essas práticas configuram formas de violência de gênero que, se não forem tratadas adequadamente, iniciam cedo e podem contribuir para a perpetuação de desigualdades e agressões na vida adulta.
Pesquisas recentes indicam que essa problemática está inserida em um contexto mais amplo. Um estudo da Fundação Friedrich Ebert Stiftung (FES Brasil), envolvendo jovens de 15 a 35 anos, revela que, apesar de a maioria defender direitos e igualdade, persistem valores conservadores, especialmente entre homens, além de uma desconfiança generalizada nas instituições. Notavelmente, 86% dos entrevistados apoiam políticas públicas de educação e saúde, revelando que muitos enxergam a escola como um espaço estratégico para a transformação social.
Sexismo em Perspectiva: Realidade nas Escolas
No cotidiano escolar, o sexismo se manifesta de maneira tanto explícita quanto sutil. Valeriana Porto Pastor, psicóloga que atua na rede pública de ensino em Caruaru (PE), observa que as experiências entre meninos e meninas contrastam de forma clara desde cedo. “Quando uma menina diz ‘eu não posso brincar na quadra porque os meninos invadem’, isso já evidencia uma desigualdade“, explica Valeriana. “Embora a guerra seja evidente, muitas vezes é camuflada e só se torna visível durante intervenções psicológicas.”
Essas experiências têm um impacto direto no desenvolvimento emocional das crianças. Muitas meninas interiorizam a violência sem nem perceber, um cenário que se transforma quando há espaço para diálogo. “Muitas alunas não se viam como vítimas de situações de violência. Com as rodas de conversa, elas começam a perceber que ‘isso não é normal, isso é violência’”, detalha Valeriana.
Conforme a psicóloga, o aumento recente nos registros de violência pode, na verdade, estar atrelado a um processo crescente de conscientização. “Percebemos tanto um aumento nas denúncias quanto nos casos. A pergunta que surge é: a violência aumentou ou a consciência sobre ela cresceu?”
A Falha Estrutural das Escolas
Embora a escola deva ser um espaço essencial para a formação e educação, ainda falha em enfrentar o problema do sexismo. Karinny Lima de Oliveira, pesquisadora do projeto “Maria da Penha vai à Escola”, observou que muitos professores não estão preparados para abordar questões de gênero. “Os educadores geralmente carecem de formação nesta área e, por isso, reproduzem discursos que naturalizam a violência, culpabilizam as vítimas ou justificam comportamentos como ‘vontade de Deus’”, destaca.
Essa falta de preparo resulta na minimização ou até na ignorância das situações de violência, frequentemente reforçadas por afirmações como “menino é assim mesmo”. Karinny aponta que a problemática é histórica e estrutural. “A violência do século XXI não surgiu do nada; é consequência de séculos em que as mulheres foram colocadas em uma posição inferior. Se não compreendermos isso, não conseguiremos enfrentá-la de fato.”
A pesquisadora enfatiza que a maioria das políticas públicas lida com a violência apenas após sua ocorrência, e não visa a prevenção. “Os centros de referência acolhem as vítimas depois que a violência já aconteceu. O que fazemos na escola é prevenção — e isso muda tudo”, afirma.
Cultura Familiar e Seus Efeitos
A dinâmica familiar também exerce um papel crucial, muitas vezes reforçando comportamentos agressivos e violentos. “Ouvir frases como ‘ruim com ele, pior sem ele’ é comum. A violência é naturalizada em casa, especialmente em contextos onde as informações não chegam”, comenta Karinny. O acesso restrito a políticas públicas contribui para essa realidade; em Pernambuco, por exemplo, apenas 37 dos 184 municípios possuem centros de referência para mulheres, perpetuando padrões machistas desde a infância, especialmente entre os meninos.
O Papel das Redes Sociais
Se antes a violência se limitava ao ambiente escolar, hoje, ela se estende ao mundo digital. O compartilhamento de imagens sem consentimento e a exposição pública por meio de grupos de mensagens agravam a situação. A deputada Denise Pessoa ressalta a urgência do papel da escola nesse contexto. “Estamos em um momento em que a violência é, inclusive, monetizada nas redes. A escola não pode se isolar dessa questão; ela possui um potencial imenso de transformação”, afirma.
Desafios Institucionais e Necessidade de Debates
Nos últimos anos, o debate sobre gênero nas escolas enfrentou resistência política e ideológica, impactando diretamente a abordagem do tema. Denise Pessoa destaca que uma narrativa contrária à discussão de gênero fez com que escolas e professores recuassem, gerando um medo de tratar do assunto. “Esse retrocesso enfraqueceu as iniciativas educativas em um momento em que a violência aumentava. Se não abordarmos isso, os jovens se tornam mais vulneráveis à agressão. A escola é o local onde podemos prevenir — o restante é lidar com as consequências”, conclui.
A Educação como Ferramenta Transformadora
Apesar dos inúmeros desafios, iniciativas como o projeto “Maria da Penha vai à Escola” têm mostrado resultados promissores. Em Caruaru, o programa abrange toda a rede pública, promovendo mudanças significativas. “Hoje, vemos crianças afirmando: ‘isso não pode acontecer comigo’. Isso é transformação”, afirma Valeriana. Para Karinny, três medidas são essenciais para o avanço desse processo: a inclusão do tema gênero no currículo escolar, a criação de núcleos de gênero nas instituições e a abordagem interdisciplinar que envolva todas as disciplinas. “Não é responsabilidade de uma única pessoa. É possível discutir gênero na matemática, na geografia e em todas as áreas do conhecimento.”, conclui.
A deputada Denise Pessoa reafirma: “A educação é a chave para a transformação. Sem ela, não conseguiremos mudar essa realidade.” Os dados e relatos convergem para uma conclusão fundamental: o sexismo não se origina na vida adulta. Ele é aprendido, aceito e replicado desde a infância. Por isso, a escola se torna um espaço crucial. Entre o silêncio e a transformação, a diferença reside na capacidade de reconhecer que o que muitos ainda chamam de “brincadeira” é, na verdade, o início de uma violência que pode impactar toda uma vida.

