O Crescimento Alarmante nos Atendimentos de Saúde Mental
A saúde mental de crianças em idade escolar tem se tornado um tema de crescente preocupação, especialmente na rede pública de saúde de São Paulo. Um levantamento recente revelou que, apenas no ano passado, mais de 1,2 milhão de atendimentos ambulatoriais foram realizados para crianças entre 5 e 9 anos. Para se ter uma ideia da gravidade da situação, entre os anos de 2023 e 2025, houve um aumento de 50% na procura por esses serviços, conforme dados da Secretaria de Estado da Saúde. Não há outra faixa etária que se aproxime do volume de atendimentos dedicados a essas crianças, evidenciando que a saúde mental dos pequenos paulistas está em um estado crítico.
Essas crianças necessitam de acompanhamentos especializados, que incluem consultas com psicólogos e psiquiatras, terapia individual e em grupo, além de acompanhamento multiprofissional e monitoramento de medicamentos. Em situações mais graves, onde há risco para a própria criança ou terceiros, as internações psiquiátricas se tornam necessárias. Curiosamente, esse tipo de internação também apresentou um aumento, subindo 8% no número de casos, totalizando 119 crianças internadas.
Transtornos e Fatores Contribuintes
Os principais motivos para os atendimentos ambulatoriais incluem transtornos de desenvolvimento, deficiência intelectual e atraso cognitivo. Muitas dessas questões têm raízes genéticas, como no caso do autismo e do transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). No entanto, também existem transtornos que surgem em decorrência de fatores externos, como a depressão e a ansiedade. Isso sugere que certos estilos de vida têm levado os pequenos a buscar a ajuda de profissionais de saúde mental, com muitos sendo encaminhados até para internações. Infelizmente, muitas dessas situações têm relação direta com a exposição excessiva a dispositivos eletrônicos, como celulares.
O psiquiatra infantil Gustavo Estanislau, em declarações ao Estadão, destacou que o uso excessivo de telas afasta as crianças das brincadeiras e das atividades físicas, contribuindo para o aumento do sobrepeso e da obesidade. Além do mais, essa realidade prejudica o desenvolvimento de habilidades psicossociais, motoras e emocionais, que deveriam ser estimuladas nessa fase de vida. Estanislau ainda alerta que a dependência de dispositivos eletrônicos torna as crianças mais sensíveis à frustração e ao tédio, resultando em problemas de sono e alimentação, comportamentos que costumam ser comuns na vida adulta.
Um Paradoxo em Meio à Crise
O aumento nos atendimentos revela um paradoxo interessante: embora os pais estejam percebendo a necessidade de assistência para os filhos e buscando ajuda, o que demonstra progresso na superação do estigma associado à saúde mental, eles também são responsáveis pelas escolhas de exposição que levam as crianças a esses problemas. Assim, enquanto os sinais de ansiedade e angústia são reconhecidos e tratados, muitas das causas desse sofrimento são originadas pelas próprias decisões dos pais, que deveriam proteger suas crianças.
As pesquisas sobre o tema têm mostrado que o problema se estende além de São Paulo e abrange toda a sociedade. Um estudo recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ouviu 118 mil adolescentes entre 13 e 17 anos e constatou que três em cada dez estudantes dessa faixa etária relatam sentimentos de tristeza constante, enquanto 42,9% afirmam se sentir frequentemente irritados, nervosos ou mal-humorados. Além disso, 18,5% dos adolescentes acreditam que “a vida não vale a pena ser vivida”.
A Responsabilidade dos Pais e a Proteção dos Filhos
Para evitar que crianças tão pequenas levem problemas emocionais para a adolescência, é crucial que os pais sigam o que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Constituição federal preveem: cuidar de seus filhos com a máxima prioridade. Isso implica, entre outras coisas, limitar a exposição a telas. Recentemente, uma nova lei foi sancionada, proibindo o uso de celulares nas escolas, já que esses dispositivos podem dispersar a atenção e prejudicar o aprendizado. Em casa, a situação não é diferente: o uso excessivo de celulares pode viciar e adoecer as crianças, tornando o ambiente familiar menos saudável.

