A expansão do soft power asiático na cultura e tecnologia
Nos últimos anos, países asiáticos têm ampliado sua presença no cenário global por meio de uma combinação poderosa: elementos culturais e avanços na tecnologia digital. Essa união vem permitindo que essas nações ultrapassem barreiras tradicionais, rompendo antigas representações coloniais e projetando uma influência que vai além do poder militar ou econômico. O tema foi explorado no podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, que investigou o conceito de soft power, termo cunhado pelo internacionalista Joseph Nye.
Emiliano Unzer, professor de história da Ásia na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), destaca que o soft power se manifesta quando uma nação consegue exercer influência por meio da cultura, língua e entretenimento, impactando o campo afetivo e cognitivo das pessoas. “Você consegue transpor barreiras, não necessariamente por aviões e nem por sanções econômicas. E nisso você consegue ter uma espécie de competição pelo campo afetivo, campo cognitivo, que as pessoas começam a receber e começam a processar”, explica o professor.
O papel das tecnologias digitais na narrativa cultural asiática
Com o avanço das tecnologias digitais, países do continente asiático ganham espaço para contar suas próprias histórias, desconstruindo narrativas impostas pelo Ocidente. Para Unzer, a percepção de jovens hoje é muito mais ampla em comparação com as gerações anteriores, graças ao acesso facilitado a informações, séries, modas, comportamentos e sons variados. Ele relembra sua própria experiência com o entretenimento asiático, especialmente os animes japoneses que chegavam à televisão brasileira nos anos 1980.
Essa diversidade cultural e a ampliação das produções também refletem uma busca por conteúdos mais variados e inclusivos, segundo Mayara Araújo, professora da Universidade de Estudos Internacional de Zhejiang. Ela aponta que, enquanto o Japão foi pioneiro na difusão do soft power por meio de iniciativas privadas e menos organizadas, a Coreia do Sul adotou uma estratégia estatal desde os anos 1980 para promover sua cultura globalmente, especialmente através do cinema, música, moda e beleza.
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Planejamento estratégico e resultados econômicos do soft power
O investimento da Coreia do Sul em sua indústria cultural tem retornos significativos para a economia local. Conforme Emiliano Unzer, para cada dólar investido pelo governo sul-coreano em produções culturais, há um retorno de oito dólares, o que evidencia a importância estratégica desse setor. Além disso, China e Índia também ganham destaque na cena internacional. A Índia se destaca com a produção robusta de Bollywood, enquanto a China expande suas produções culturais com um olhar estruturado, que vai do cinema de artes marciais de Hong Kong nos anos 1970 até animações recordistas como “Ne Zha 2”.
Mayara Araújo destaca que a China não busca apenas utilizar a cultura para fins econômicos, mas também para disputar narrativas globais e apresentar uma imagem que contraponha estereótipos ocidentais. Essa estratégia cultural é parte de um esforço para reposicionar o país no imaginário internacional.
Soft power, parcerias globais e desafios na circulação cultural
Na circulação internacional dos conteúdos culturais asiáticos, parcerias entre países ocidentais e asiáticos já são uma realidade. A Netflix, por exemplo, tem sido uma importante mediadora da onda cultural coreana no Brasil, ampliando o acesso a produções sul-coreanas. No entanto, a professora Mayara Araújo alerta para os riscos de desigualdade nas relações entre plataformas digitais e produtores culturais, destacando a influência das grandes empresas estadunidenses no mercado audiovisual global.
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Fonte: soudesaoluis.com.br
A especialista ressalta a importância de regulamentações, como as discutidas no Brasil, para garantir que essas plataformas ofereçam contrapartidas e respeitem as especificidades dos mercados locais onde atuam. Essa atenção é fundamental para um ambiente cultural mais justo e equilibrado.
Impactos do soft power nas relações diplomáticas
Além do campo cultural e econômico, o soft power tem efeitos nas relações diplomáticas entre os países. Para Emiliano Unzer, a familiaridade proporcionada pelo contato cultural facilita a confiança e aproximação entre nações, quebrando barreiras tradicionais de estranhamento. “Quando você começa a ter uma proximidade maior com a familiaridade, com a história, com a cultura, com a língua, você já quebra uma das barreiras mais difíceis na diplomacia, que é o distanciamento, o estranhamento”, conclui o professor.
Assim, a influência cultural e a tecnologia digital se mostram ferramentas valiosas para países asiáticos que buscam ampliar sua presença e relevância no cenário mundial, promovendo uma circulação cultural mais ampla e diversificada para públicos de todas as idades e origens.

