Pesquisadores contam com narvais para estudar o Ártico
Um estudo publicado na revista Science Advances, na quarta-feira (26), contou com a ajuda de parceiros pouco convencionais. Entre 2017 e 2020, seis narvais foram equipados com transmissores via satélite para coletar dados sobre as condições do oceano Ártico e os impactos da mudança climática causada pelo homem.
Conhecidos como “unicórnios do mar”, esses cetáceos exploraram áreas remotas do leste da Groenlândia e registraram mais de 2.000 observações sobre temperatura e salinidade das águas. Essas informações revelam a penetração de águas mais quentes do Atlântico nos fiordes locais, acelerando o derretimento das geleiras e afetando sistemas climáticos globais.
Tecnologia e natureza em uma parceria inédita
Mads Peter Heide-Jorgensen, professor do Instituto de Recursos Naturais da Groenlândia e primeiro autor do estudo, explicou à AFP que a abordagem é inédita. Tradicionalmente, as medições eram feitas por tripulações em navios, que recolhiam amostras manualmente. Hoje, sensores eletrônicos facilitam esse trabalho, mas apenas no verão, quando não há gelo.
O uso de navios quebra-gelo é caro e arriscado, pois a presença de icebergs pode causar danos graves às embarcações. Por isso, o papel dos narvais é essencial: enquanto eles mergulham nas águas geladas, os pesquisadores recebem dados em tempo real, sem sair de seus escritórios.
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Os autores do estudo destacam que essa combinação de tecnologia e colaboração animal pode revolucionar a pesquisa oceanográfica, abrindo caminhos para monitorar regiões inóspitas de forma eficiente.
Implicações para o clima e a circulação oceânica
O derretimento das geleiras no leste da Groenlândia libera água doce que alimenta correntes fundamentais do Ártico, como a Corrente da Groenlândia Oriental. Essa corrente influencia diretamente a Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico (Amoc), uma espécie de transportadora dos principais fluxos oceânicos.
Especialistas alertam que um possível colapso da Amoc pode provocar invernos rigorosos na Europa, com resfriamentos intensos. Por isso, entender a “atlantificação” das águas locais é crucial para prever mudanças climáticas globais.
Os narvais e seu habitat ameaçado
O ambiente hostil e remoto dificulta o trabalho dos cientistas, mas os narvais têm se mostrado colaboradores valiosos. Mergulhando a mais de 1.500 metros, eles coletam dados completos das colunas d’água, permitindo identificar a origem das massas aquáticas, seja atlântica ou polar.
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Uma descoberta importante foi a presença de águas atlânticas em profundidades sob geleiras do complexo de fiordes Scoresby Sound, a 350 quilômetros do continente. Contudo, esses mesmos narvais enfrentam os efeitos da mudança climática, com seu habitat encolhendo e a necessidade de migrar para o norte em busca de águas mais frias.
Colaboradores relutantes, mas essenciais
Embora outras espécies marinhas, como focas e belugas, também tenham sido estudadas, os narvais se destacam por retornarem repetidamente aos mesmos locais, o que é fundamental para coletar dados consistentes ao longo do tempo.
Carinhosamente batizados com nomes nórdicos como Freya e Balder, esses animais não demonstram entusiasmo pela interação humana, agindo sob protesto, segundo Heide-Jorgensen. Ainda assim, sua contribuição é indispensável para entender as transformações do Ártico e seus impactos globais.

