Um Marco na Política de Drogas
Na última segunda-feira, dia 8, a Prefeitura de São Paulo, em colaboração com o Governo do Estado, promoveu o I Simpósio Latino-Americano de Políticas sobre Drogas. Este importante evento, realizado no Memorial da América Latina, teve como foco a apresentação do modelo intersetorial que propiciou o fim das antigas cenas abertas de uso de drogas, notoriamente conhecidas como Cracolândia. O encontro reuniu gestores, pesquisadores e especialistas do Brasil, Argentina e Peru, todos voltados para discutir estratégias de cuidado integral, prevenção, proteção social, segurança pública e requalificação urbana.
O vice-governador Felício Ramuth ressaltou que os resultados positivos obtidos são fruto da sinergia entre a Prefeitura e o Governo do Estado. Desde março de 2023, ambas as instituições têm atuado de maneira integrada em setores como saúde, assistência social, segurança pública e habitação. “Estamos moldando uma política pública que compreende a complexidade do problema e atua em diversas frentes. A colaboração entre as áreas é fundamental para garantir cuidado, acolhimento e um combate efetivo ao crime organizado, que se alimenta do sofrimento dessas famílias”, afirmou Ramuth.
Iniciativas de Sucesso no Atendimento
Entre as iniciativas de destaque apresentadas durante o simpósio, o HUB de Cuidados de Crack e Outras Drogas se sobressaiu por já ter realizado mais de 35 mil atendimentos. Essa estrutura se tornou uma porta de entrada essencial para o tratamento de pessoas que enfrentam o uso problemático de substâncias psicoativas. A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) desempenhou um papel crucial na implementação e consolidação dessa estratégia, com uma vasta rede que atende diariamente 6.800 pessoas na Rede Assistência Psicossocial (Raps). Isso se deve à articulação entre 22 secretarias municipais e estaduais, que trabalham em conjunto para apoiar indivíduos em situação de rua e vulnerabilidade extrema.
A secretária executiva de Atenção Básica e Especialidades, Sandra Sabino, destacou que o simpósio apresentou de forma clara todas as ações conjuntas da Prefeitura e do Governo no combate às cenas de uso na capital, que culminaram na extinção da chamada Cracolândia. “Essa experiência pode servir como modelo a ser seguido por outras cidades”, acrescentou.
Levantamentos que Guiam Ações Direcionadas
Uma das partes mais relevantes do evento foi a apresentação de pesquisas sobre o perfil das pessoas que frequentavam essas cenas de uso, além dos fluxos de cuidado e ações específicas que facilitaram a transição gradual dessas pessoas para acolhimento e tratamento contínuo. Os dados revelaram que os principais motivos que levavam usuários a permanecer na antiga Cracolândia incluíam o fácil acesso às drogas (54,7%), preços mais baixos (34,3%), uso “seguro” no local (18%) e a disponibilidade de serviços de saúde (18,7%).
A partir dessa análise, diversas medidas foram implementadas, como a instalação de câmeras inteligentes, fechamento de estabelecimentos que serviam de abrigo para atividades ilícitas, prisão de infratores e aumento da presença de serviços de saúde e assistência na região.
O Papel das Equipes de Saúde no Tratamento
A coordenadora do Programa Redenção, Luiza Chizue Gatti Murakami, enfatizou a importância das equipes do Consultório na Rua (CnR) na adesão dos usuários ao tratamento de desintoxicação. “Nossos dados mostram que as pessoas acompanhadas pelo CnR tendem a aderir mais aos programas terapêuticos, tornando essas equipes essenciais para os resultados positivos obtidos”, explicou. Luiza também destacou que o vínculo contínuo estabelecido pelos profissionais foi fundamental para a eficácia do modelo paulista.
Um Diagnóstico Revelador
No âmbito do simpósio, um diagnóstico aprofundado sobre o perfil das pessoas em situação de uso foi apresentado. Os dados revelaram que 73% dos usuários são homens, 76% se identificam como pretos ou pardos, 76,3% reportaram ter sofrido abusos na infância e 41% têm histórico de violência intrafamiliar. Além disso, 50,5% já tentaram suicídio, sendo que 70,8% deste grupo são mulheres.
Esses dados reforçam que as cenas de uso refletem profundas desigualdades sociais, como racismo, violência e exclusão. O trabalho das equipes da SMS vai além do cuidado clínico, abrangendo acolhimento de histórias marcadas pela dor e a reconstrução de vínculos. É um esforço contínuo para garantir que cada indivíduo seja compreendido em sua totalidade, com dignidade e a esperança de um futuro melhor.

