Intervenção e a Doutrina Monroe
Um mês antes da controversa invasão da Venezuela, cujo objetivo era capturar o presidente Nicolás Maduro, a administração Donald Trump rescindiu as normas tradicionais da política externa americana ao reviver a Doutrina Monroe, datada do Século XIX. Essa doutrina, que estabelece o Hemisfério Ocidental como esfera de influência dos EUA, levou a diversas intervenções e golpes na América Latina ao longo da história. Contudo, o ataque à Venezuela, que ocorreu de forma explícita e sem a pretensão de promover a democracia ou a autodeterminação, foi uma inovação arriscada, onde o petróleo se tornou o foco central.
Críticas à Nova Doutrina
Conforme analisa Gustavo Macedo, professor de Relações Internacionais no Ibmec, ainda é prematuro nomear essa abordagem como uma nova Doutrina Trump, mas algumas características que a definem já são evidentes. Ele destaca o desrespeito às normas internacionais, a falta de compromisso com pactos regionais e, principalmente, a imprevisibilidade nas decisões do presidente, que costumam surpreender seus aliados. Essa lógica caótica é análoga a outras políticas americanas do passado, como a Doutrina Monroe e a estratégia pós-11 de Setembro de George W. Bush, que também focaram em mudanças de regime e no controle de recursos naturais.
O Caos nas Relações Internacionais
Macedo ressalta que a administração Trump carece de princípios claros para abordar situações internacionais, levando a um ambiente de instabilidade e caos. A violação das regras tradicionais do sistema multilateral e do direito internacional, especialmente em relação ao Estatuto de Roma, evidencia essa postura. A Carta da ONU, que confere ao Conselho de Segurança a prerrogativa de autorizar ações militares, foi desconsiderada nas ações recentes dos EUA.
A Nova Realidade da América Latina
Esse desprezo pelas normas internacionais é ainda mais alarmante, uma vez que se refere a uma intervenção em solo latino-americano. O princípio da não intervenção, que remonta ao Século XIX e foi defendido por figuras como Ruy Barbosa, é colocado em xeque por ações como a de Trump. No contexto da invasão, o ex-presidente enfatizou o petróleo venezuelano como um dos principais interesses dos EUA na região, algo que difere do discurso diplomático típico de seus antecessores.
O Futuro Político da Venezuela
Apesar das intenções manifestadas por Trump de liderar a Venezuela até que uma mudança de regime ocorra, a real configuração política do país permanece indefinida. Macedo destaca a incerteza sobre a legitimidade do novo governo que emergir de uma intervenção que ele classifica como ilegítima e típica de um crime internacional. Com a vice-presidente assumindo temporariamente, a situação se torna ainda mais complexa, com a possibilidade de contestações internas e um ciclo de instabilidade crescente.
Repercussões Internacionais
Embora aliados como China e Rússia tenham condenado publicamente a invasão, a falta de ações concretas para apoiar Maduro sugere um jogo geopolítico mais amplo. Macedo compara a atuação dos EUA com uma partida de pôquer, enquanto os países envolvidos como China e Rússia jogam xadrez, planejando movimentos a longo prazo. A repercussão desse ato pode influenciar futuras relações internacionais, especialmente em contextos onde interesses econômicos colidem.
A Estabilidade da Região em Jogo
A situação na Venezuela representa um novo cenário de instabilidade política para a América Latina. A possibilidade de uma guerra civil ou da fragmentação do poder é uma preocupação legítima, e a comunidade internacional, especialmente países poderosos como a China e a Rússia, pode não reconhecer a legitimidade de um governo imposto por forças externas. Estamos, portanto, diante de um momento crítico na política internacional, onde a luta pelo controle de recursos e a definição de esferas de influência moldarão o futuro da região.

