Crescimento Acelerado dos Atendimentos Relacionados à Obesidade
Nos últimos nove anos, o número de atendimentos vinculados à obesidade por parte de usuários de planos de saúde no Brasil aumentou impressionantes 108%. O salto foi de 40,7 casos para 84,5 por 100 mil beneficiários, com um crescimento acelerado a partir de 2020, em decorrência dos efeitos da pandemia de Covid-19.
Os dados são provenientes de uma pesquisa realizada pelo IESS (Instituto de Estudos de Saúde Suplementar), que utilizou registros da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar). O levantamento abrange atendimentos ambulatoriais e hospitalares que apresentaram diagnóstico relacionado à obesidade.
A Prevalência da Obesidade Aumenta no Brasil
A obesidade tornou-se um problema crescente no Brasil, com um aumento de 118% na taxa de prevalência entre a população adulta nos últimos 19 anos, segundo informações divulgadas pelo Vigitel, um sistema do Ministério da Saúde que monitora a incidência de doenças crônicas no país.
No estudo do IESS, o crescimento dos atendimentos se mostrou mais acentuado entre as mulheres, que apresentaram uma elevação nas taxas de 55,2 para 128,2 atendimentos por 100 mil beneficiárias — um aumento de 132%. Já entre os homens, o crescimento foi mais modesto, subindo de 24,2 para 35,6 por 100 mil, totalizando uma alta de 47%.
“As mulheres tendem a buscar mais o sistema de saúde, tanto no SUS (Sistema Único de Saúde) quanto na saúde suplementar, o que pode gerar um viés nos dados”, explica Denizar Vianna, superintendente executivo do IESS.
Impacto por Faixa Etária e o Preocupante Cenário Econômico
A análise por faixa etária revela uma preocupação crescente em relação à obesidade. Crianças e adolescentes de 0 a 19 anos tiveram um aumento proporcional significativo, indo de 2,3 para 5,1 atendimentos por 100 mil (alta de 121%). Entretanto, os adultos de 20 a 59 anos, que representam a força de trabalho predominante entre beneficiários de planos de saúde, mostraram taxas superando 134 por 100 mil, um aumento de 116%.
Esta faixa etária é especialmente crítica, pois a obesidade nesse grupo gera uma pressão considerável sobre o sistema de saúde, refletindo diretamente em custos médico-hospitalares, afastamentos do trabalho e perda de produtividade.
Entre os idosos, a taxa subiu 64%, passando de 11,5 para 18,9 por 100 mil, sinalizando uma demanda acumulativa e crônica. Bruno Sobral de Carvalho, diretor-executivo da FenaSaúde (Federação Nacional de Saúde Suplementar), ressalta que a obesidade deve ser encarada como uma comorbidade que pode desencadear outras doenças, especialmente cardiovasculares e metabólicas.
Acesso a Tratamentos e o Papel das Políticas Públicas
Os pesquisadores destacam que parte do aumento no acesso a atendimentos está ligado à maior disponibilidade de consultas com nutricionistas e às mudanças regulatórias que facilitam a cobertura desses serviços pelos planos de saúde. Embora essas melhorias sejam positivas, elas podem ser insuficientes se implementadas de forma isolada.
Estudos sugerem que intervenções apenas voltadas para aconselhamentos nutricionais possuem eficácia limitada para a manutenção da perda de peso em um ambiente onde o sedentarismo e o consumo de alimentos ultraprocessados são predominantes.
Vianna afirma que o combate à obesidade deve transcender as esferas do SUS e da saúde suplementar, exigindo políticas públicas abrangentes que promovam o acesso a alimentos saudáveis e a revisão de subsídios sobre produtos ultraprocessados, similar ao que foi feito no combate ao tabagismo.
Perspectivas Futuras e Desafios na Saúde Suplementar
O debate ganha ainda mais relevância com a introdução de novos medicamentos como os agonistas de GLP-1, que prometem auxiliar na redução significativa de peso. Com a expectativa de novos concorrentes e a diminuição dos preços, a questão econômica ainda se apresenta como um grande entrave.
Dado o elevado número de indivíduos afetados pela obesidade, a inclusão de tratamentos farmacológicos para todos os elegíveis pode gerar um impacto financeiro considerável sobre as operadoras. Além disso, a saúde suplementar não exige cobertura obrigatória para medicamentos ambulatoriais, exceto em casos específicos, como os oncológicos.
Os autores do estudo alertam que a continuidade do tratamento é crucial para evitar o reganho de peso, que pode ocorrer rapidamente após a interrupção. A pressão financeira sobre os planos também requer uma análise rigorosa de custo-efetividade dos novos tratamentos.
Vianna defende que a expansão do acesso aos medicamentos deve ocorrer de forma estruturada, focando em pacientes de maior risco e sendo acompanhada por equipes multidisciplinares que promovam suporte nutricional e incentivo à atividade física.
Carvalho acrescenta que ainda são necessárias mais evidências sobre a eficácia do uso isolado de medicamentos em comparação à abordagem multidisciplinar. “Devemos avançar nas pesquisas sobre os benefícios dos novos tratamentos e sua integração com outras estratégias”, conclui.
Apesar dos desafios, Vianna observa que o amadurecimento do setor pode favorecer uma abordagem mais integrada e eficaz no combate à obesidade.

