Desafios da Saúde Mental entre Profissionais da Educação
Durante a audiência pública realizada na Câmara Municipal do Recife, a vereadora Liana Cirne abriu os debates enfatizando a seriedade do adoecimento mental que afeta professores e outros profissionais da educação, como os Agentes de Desenvolvimento Infantil (ADIs) e os Agentes de Apoio ao Desenvolvimento Escolar Especial (AADEEs). Segundo ela, o adoecimento mental se tornou a principal razão para licenças médicas na área educacional no Brasil, embora dados específicos sobre a situação em Recife ainda sejam escassos.
“Anualmente, são emitidos dezenas de milhares de atestados médicos na rede educacional, e isso é uma questão alarmante. Apenas em São Paulo, em 2019, antes da pandemia, foram registrados 27 mil atestados médicos devido a transtornos mentais na educação”, destacou a parlamentar, refletindo sobre como a situação se agravou com a pandemia.
Vozes da Educação no Debate
A mesa de debates contou também com a presença de diversas lideranças do setor educacional, incluindo Anna Cristina Davi de Souza, coordenadora-geral do Sindicato Municipal dos Profissionais de Ensino da Rede Oficial do Recife (SIMPERE); Ivete Caetano, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco (Sintepe); e Mariana Rodrigues, diretora-executiva do Sindicato dos Servidores Públicos do Recife (Sindsepre). Todos compartilharam suas perspectivas sobre os desafios enfrentados na rede educacional.
Anna Davi expressou preocupação com o esgotamento dos profissionais e ressaltou a ausência de políticas de cuidado adequadas. Segundo ela, a realidade tem sido invisibilizada, com educadores se sentindo pressionados a se aposentar por questões de saúde mental, sem garantias de readaptação após licenças médicas. “Muitas vezes, a sociedade não percebe a gravidade do adoecimento mental. De acordo com dados da CNTE [Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação], 66% dos professores já se afastaram, sendo 28% por depressão. Essa situação é uma questão de saúde pública e a rede precisa cuidar de seus profissionais”, alertou Davi.
Impactos e Consequências do Adoecimento Mental
Adneva Azevedo, professora e sindicalista, destacou que a crise de saúde mental entre educadores no Brasil é marcada por altos índices de burnout, ansiedade e depressão, frequentemente exacerbados por condições precárias de trabalho. Azevedo chamou a atenção para o impacto desproporcional sobre as mulheres, que predominam na categoria e muitas vezes acumulam tarefas domésticas, além das responsabilidades educacionais.
“As condições de trabalho são fundamentais. Quando há um descompasso entre as exigências e o que realmente pode ser oferecido, o adoecimento é inevitável”, enfatizou. A professora também trouxe à tona questões como a pressão por resultados, a desvalorização social e profissional, e a violência que permeia o ambiente escolar.
Ações Institucionais e Propostas de Melhoria
Rossana Albuquerque, representante da Prefeitura, abordou as ações já implementadas, como o Programa Bem-Estar na Educação, que visa oferecer suporte aos educadores. Com 24 anos de experiência na rede, ela observou que o perfil de adoecimento ganhou novas dimensões, agora mais relacionado ao sofrimento mental do que a problemas físicos, refletindo um contexto social mais amplo. “Estamos vivendo um período desafiador, marcado pelo aumento da violência e tensões que também impactam as escolas”, comentou.
Albuquerque afirmou que, apesar das iniciativas, a maioria das demandas atendidas se referem a casos já críticos, apontando a necessidade de ações preventivas. Ao final da audiência, diversas propostas foram levantadas, como a ampliação da contratação de psicólogos e psiquiatras pelo programa Saúde Recife e a formalização de uma nova política de readaptação para educadores que retornam de licenças médicas.
Outras sugestões incluíram a ampliação do Programa Bem-Estar e a necessidade de ações informativas sobre assédio moral, além de reforçar a política antirracista e anticapacitista da Secretaria de Educação. Também foi decidido solicitar à Prefeitura a criação de protocolos específicos para lidar com situações de violência, bullying e assédio moral nas escolas, com o intuito de garantir um ambiente mais seguro e saudável para todos os envolvidos.

