Conflito em Gainesboro: Um Loteamento Controverso
O empresário Josh Abbotoy, à frente da imobiliária Ridgerunner, está empreendendo um projeto de loteamento nas montanhas Apalaches, no Tennessee, que visa promover uma vida centrada em agricultura e princípios religiosos. O foco, segundo Abbotoy, se alinha à premissa de “Fé, família e liberdade”, valores que ele considera fundamentais para a comunidade que deseja formar.
Conforme reportado pela BBC, o projeto não se limita ao Tennessee e conta com áreas planejadas no Kentucky. Abbotoy descreve essa iniciativa como uma “comunidade baseada na afinidade”, direcionada para pessoas que compartilham ideais conservadores e de direita.
A proposta gerou controvérsias, especialmente em função das posturas de seus primeiros residentes, o pastor Andrew Isker e o empresário C. Jay Engel. Ambos se identificam como “nacionalistas cristãos” e expressam opiniões polêmicas, questionando direitos históricos como o sufrágio feminino e os direitos civis, além de defenderem a ideia de “revogar o século 20” e a deportação em massa de imigrantes, independentemente de sua legalidade.
Essa situação provocou reações em Gainesboro, uma pequena cidade com cerca de 900 habitantes, onde a presença desse grupo gerou apreensões. Nan Coons, uma residente local, manifestou seu temor em relação a essas novas pessoas na comunidade: “Você não sabe quem são essas pessoas, nem do que elas são capazes”, afirmou, ressaltando que isso a deixa assustada. Embora Abbotoy não se encaixe no rótulo de nacionalista cristão, ele considera que as preocupações são exageradas.
Atividades Políticas e Ideológicas
Isker e Engel, além de suas atividades como moradores, produzem um podcast intitulado “Contra Mundum” (latim para “contra o mundo”) em um estúdio na sede da Ridgerunner, onde incentivam a população a buscar controle político em pequenas cidades. Numa de suas transmissões, Isker destacou a importância de estabelecer poder dentro de uma cidade, sugerindo que isso poderia incluir a participação em associações e influenciar autoridades locais.
Engel também promove um conceito nas redes sociais conhecido como “americanos por legado”, focando em anglo-protestantes com raízes históricas nos Estados Unidos. Embora evite mencionar a questão racial de forma explícita, ele admite que a proposta possui “fortes correlações étnicas”. Para ele, a repatriação de imigrantes, mesmo os legalizados, é necessária, defendendo que grupos oriundos de regiões como o Sudeste Asiático, Índia e África teriam menor capacidade de integração. Engel e Isker também se posicionam contra a comunidade LGBTQIA+.
Coons relata que Engel ainda reforça a ideia de “voto familiar”, onde o marido votaria em nome de toda a família. Apesar de afirmar que não é “errado” que mulheres votem, ele se mantém defensor do modelo tradicional. Apesar das controvérsias em torno de suas visões, Isker e Engel contestam o rótulo de nacionalistas brancos.
Reação da Comunidade de Gainesboro
A resistência ao projeto gerou uma onda de mobilização entre os moradores de Gainesboro. Diana Mandli, uma empresária respeitada na região, acredita que as intenções do grupo são transformar a cidade e o condado em um reduto de ideologia nacionalista cristã. Como forma de protesto, ela deixou um recado claro em seu antigo estabelecimento, na praça central: “Se você é alguém ou um grupo que promove a inferioridade ou a opressão dos outros, por favor, coma em outro lugar”.
A mobilização da comunidade resultou em confrontos diretos. Quando os líderes da Ridgerunner foram avistados em um restaurante local, dezenas de moradores se reuniram para questioná-los sobre suas intenções e o futuro do projeto.
Futuro da Ridgerunner
No presente momento, a Ridgerunner está focada na construção da infraestrutura básica do loteamento, com cerca de metade das terras já contratadas. Abbotoy prevê que os primeiros residentes se mudem para lá em 2027, justificando que seus clientes buscam apenas viver em comunidades que compartilhem valores semelhantes.
Ele encara as polêmicas em torno do projeto como debates em torno de “grandes ideias e livros”, argumentando que “reverter o século 20 pode ter múltiplas interpretações. Muitos conservadores acreditam que tomamos diversas decisões erradas ao longo do caminho”.
O conflito em Gainesboro vai além de uma simples disputa local, envolvendo figuras que têm impacto fora do Tennessee. Josh Abbotoy, um graduado em Direito por Harvard e investidor conservador, também é fundador de um portal que divulga conteúdos nacionalistas cristãos. Em contrapartida, os moradores contrários ao projeto contam com o apoio da organização States at the Core, que luta contra o autoritarismo em pequenas comunidades.
A Ridgerunner alega que a resistência é fruto de uma orquestração por grupos liberais influentes, uma vez que a States at the Core recebe financiamento oriundo de organizações de esquerda. Entretanto, os residentes de Gainesboro rebatem essa afirmação. Nan Coons declarou à BBC que suas ações são espontâneas: “Ninguém me pagou para dizer nada”.
Essa situação reflete um cenário político mais amplo nos Estados Unidos. Em 2024, os republicanos ampliaram sua influência em áreas rurais, com Donald Trump conquistando 69% dos votos. Por outro lado, o Partido Democrata anunciou investimentos substanciais para tentar reconectar-se com esse eleitorado nas próximas eleições.
Abbotoy reconhece essa movimentação política, mas aponta um fluxo de pessoas migrando para cidades menores em busca de uma cultura conservadora. Já Coons e seus aliados deixaram claro que não estão dispostos a abrir mão de sua cidade natal para o nacionalismo cristão. “Para reverter essa tendência, é fundamental agir localmente”, destacou Coons, ressaltando que é preciso defender o que se acredita.

