As Mudanças nas Big Techs
No último mês, a Apple surpreendeu o mercado ao demitir uma quantidade significativa de funcionários de sua área de vendas, um movimento inesperado para a gigante da tecnologia. A Apple, historicamente reconhecida por evitar grandes cortes, agora se junta a outras empresas do setor que enfrentam uma onda de demissões. A crise no mercado de trabalho americano, especialmente após a pandemia, tem sido marcada por uma série de dispensas, tanto dentro quanto fora do setor de tecnologia.
Conforme destacado por uma reportagem da Bloomberg, essas demissões “pegaram de surpresa” os colaboradores, incluindo aqueles que atuavam na empresa há várias décadas. Essa mudança abrupta reflete uma nova era no setor, onde a segurança no emprego, antes um privilégio entre os trabalhadores de tecnologia, está se tornando cada vez mais incerta.
Um estudo do site Glassdoor revelou que 2023 registrou um pico significativo de demissões, que, por sua vez, continuam em um ritmo superior ao de anos anteriores. O setor de tecnologia, em particular, tem se voltado para demissões após um período de contratações intensas, exacerbadas pelas incessantes mudanças de prioridades e pela rápida ascensão da inteligência artificial, que está reformulando o panorama do mercado.
O Crescente Número de Despedidas
Desde 2022, as empresas de tecnologia dispensaram mais de 700 mil trabalhadores, segundo dados do monitor Layoffs.fyi. Excetuando a Apple, que realizou cortes pontuais, gigantes como Amazon, Meta, Google e Microsoft participaram ativamente dessa onda de demissões, resultando na saída de dezenas de milhares de empregados em menos de três anos.
Essa situação, que antes poderia ser vista como uma exceção, agora se tornou uma regra. A percepção de que os empregos em tecnologia eram estáveis e desejáveis tem se desvanecido rapidamente. Brett Coakley, um especialista em coaching de carreiras da consultoria Close Cohen, menciona que “as demissões deixaram de ser o último recurso e se tornaram uma ferramenta de planejamento”. Segundo ele, muitos trabalhadores que se sentiam seguros estão percebendo que o prestígio de trabalhar em grandes techs já não garante mais a estabilidade que antes era considerada certa.
A Nova Realidade do Emprego em Tecnologia
Durante anos, as grandes empresas de tecnologia prometeram não apenas salários atraentes, mas também uma estabilidade quase inabalável e uma série de benefícios. No entanto, o cenário mudou drasticamente com a combinação de repetidas demissões e rígidas políticas de retorno ao trabalho presencial. Durante a pandemia, muitas dessas empresas contrataram em massa, apenas para se verem forçadas a realizar cortes logo em seguida.
Companhias como a Amazon exigiram que os empregados retornassem ao escritório cinco dias na semana, em alguns casos, obrigando a mudança de cidade. Além disso, a ascensão da IA generativa está provocando uma transformação nas operações das empresas tecnológicas, com investimentos multimilionários e uma intensa concorrência por talentos qualificados.
Em meio a essa mudança, formandos em ciência da computação estão enfrentando dificuldades para assegurar empregos de nível inicial. Essa situação é, em parte, decorrente da automação crescente dessas funções. Algumas empresas, como a Salesforce, já substituíram posições por soluções de IA, enquanto outras alertaram sobre cortes iminentes, incentivando os funcionários a se adaptarem às novas tecnologias.
A Incerteza do Futuro nas Big Techs
Mark Zuckerberg, CEO da Meta, indicou que a IA pode substituir engenheiros de nível intermediário, e Andy Jassy, da Amazon, destacou a importância de funcionários que “se tornem fluentes em IA”, afirmando que eles “ajudarão a reinventar a empresa”. Essas declarações têm contribuído para criar um ambiente de incerteza, onde os profissionais se sentem cada vez menos seguros em suas carreiras dentro das big techs.
No entanto, o fascínio pelos empregos bem remunerados na tecnologia persiste, embora pareça cada vez mais distante para muitos recém-formados. Daniel Zhao, economista-chefe do Glassdoor, enfatiza que “os empregos em big tech ainda são muito atraentes”, mesmo diante das adversidades atuais. As demissões têm um impacto claro sobre a cultura organizacional, e a pesquisa do Glassdoor indica que as avaliações nas plataformas de emprego aumentam 40% na semana após cortes de pessoal, com repercussões que se estendem por meses.
De acordo com Zhao, algumas empresas tentam evitar a atenção negativa associada a cortes em massa realizando demissões menores e mais frequentes. Contudo, os trabalhadores estão cientes do que acontece e muitos estão adotando uma postura proativa, procurando novos caminhos e oportunidades.
“As pessoas estão percebendo que confiar nas grandes empresas como fonte de estabilidade já não é viável”, conclui Coakley. Enquanto a cultura nas big techs se transforma, os trabalhadores também evoluem, tornando-se mais ousados e conscientes de que, no complexo ambiente corporativo, suas posições são tão vulneráveis quanto em qualquer outro setor.

