Polarização e Alianças Inesperadas
A corrida pelo governo de Pernambuco revela um cenário de polarização acentuada entre as duas principais candidaturas: Raquel Lyra (PSD) e João Campos (PSB). Ao contrário de outros estados, o embate político em Pernambuco não se baseia nas polarizações do lulismo e do bolsonarismo, algo que torna as alianças políticas mais imprevisíveis e intrigantes. Com isso, a batalha se desenha como um verdadeiro duelo de estratégias entre a capital e o interior do estado.
Segundo Ernani Carvalho, doutor em Ciências Políticas pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a disputa não se pautará por paixões ideológicas. “Ambos candidatos estão se dirigindo ao centro”, ressalta. Essa estratégia sugere um debate mais qualificado nas campanhas, que promete influenciar a opinião dos eleitores até os últimos dias antes do pleito.
O Elo com o Interior
Raquel Lyra, a atual governadora de Pernambuco, possui laços profundos com o interior do estado. Entre 2017 e 2022, ela exerceu o cargo de prefeita em Caruaru, sua cidade natal, onde seu pai, João Lyra Neto (PSD), também foi prefeito em duas ocasiões. A conexão da família com Caruaru, cidade localizada a 134 quilômetros da capital, Recife, é ainda mais forte, visto que o avô de Raquel, João Lyra Filho, também governou a cidade. Essa herança política contribui para sua alta popularidade, com índices de aprovação de 62%, se comparados a 41% na capital.
A influência da governadora se fortalece por meio de alianças com prefeitos do interior, o que se traduz em apoio político sólido. Recentemente, Lyra anunciou investimentos de R$ 5,7 milhões na segurança pública para municípios do Agreste e do Sertão, o que certamente impacta sua aceitação entre os eleitores locais.
A construção de estradas e a manutenção de uma boa relação com prefeitos desempenham um papel crucial na formação de alianças políticas. Atualmente, dos 184 prefeitos do estado, pelo menos 140 estão ao lado da governadora. Contudo, Ernani Carvalho adverte que esse apoio pode ser efêmero. “Um prefeito pode mudar de lado se perceber que a maré está mudando”, explica.
Transformações nas Alianças
O recente desencontro entre Raquel Lyra e Álvaro Porto (PSDB), deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa (Alepe), exemplifica como as alianças políticas podem ser volúveis. Embora Porto tenha recebido apoio da governadora para presidir a Casa, desde 2024 ele se tornou um opositor fervoroso.
No cenário da capital, João Campos, filho do ex-governador Eduardo Campos, entra na disputa com um respaldo considerável. Em 2022, ele foi reeleito prefeito com impressionantes 78% dos votos válidos no primeiro turno. Contudo, aliados do governo estadual acreditam que os números de intenção de voto para Campos refletem uma queda em sua popularidade, o que pode beneficiar potencialmente Raquel Lyra nas urnas.
Leon Queiroz, vice-diretor do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFPE, comenta que a maneira como a imagem de Campos é construída se alia a um conteúdo que agrada ao público, sendo esta uma das estratégias que lhe conferiu sucesso na política local.
Estratégias de Mobilidade e Segurança
Raquel Lyra, por sua vez, também está voltada para ações na capital, buscando aumentar sua aceitação entre os eleitores recifenses, que representam 43% da população do estado. A mobilidade urbana é uma das frentes prioritárias da sua administração, e a privatização do metrô em Recife é uma medida que gera controvérsia. A insatisfação do público com o serviço atual deve ser considerada. “A população está cansada. Eles querem que funcione”, afirma Ernani Carvalho. A Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), que opera na capital, está vinculada ao Ministério dos Transportes.
Se a privatização for bem-sucedida, pode gerar dividendos eleitorais para Lyra, apresentando um risco relativamente baixo de desgaste. “A responsabilidade está no colo do governo federal”, destaca Carvalho.
A questão da segurança pública também figura entre as preocupações dos cidadãos. Lyra anunciou um investimento de R$ 2 bilhões para fortalecer esse setor, além de criar novos batalhões da Polícia Militar.
Alianças Estratégicas para o Futuro
De acordo com informações de bastidores, o PT e o PSB, que atualmente compartilham um espaço no governo federal, enfrentam relações tumultuadas, repletas de intrigas e disputas de poder em Pernambuco. Agora, a ala petista que se opõe a João Campos defende uma aliança estratégica com a governadora Raquel Lyra.
Para aumentar sua popularidade no interior, João Campos deverá tentar se aliar a Miguel Coelho (União), ex-prefeito de Petrolina. Nos bastidores, há dúvidas sobre se Coelho irá compor a chapa como candidato ao Senado ou como vice. Isso se dá em meio à preferência da federação União Progressista por Eduardo da Fonte (PP) para o Senado.
Dessa forma, o PSB não deve montar uma chapa exclusivamente de esquerda. Essa postura pode ser menos vantajosa na disputa, considerando o cenário atual em Pernambuco. “A intenção é ser eclético para alcançar um eleitorado mais amplo”, analisa Leon Queiroz.
Do outro lado, as informações sugerem que Raquel Lyra e o deputado federal Eduardo da Fonte estão se encaminhando para uma aliança promissora. Outras possibilidades para compor a chapa da governadora incluem Anderson Ferreira (PL) e Miguel Coelho.

