Índia Morena: Uma Vida Dedicada ao Circo e à Cultura Pernambucana
Índia Morena é uma das primeiras personalidades reconhecidas como patrimônio cultural vivo de Pernambuco, estado pioneiro no Brasil a registrar pessoas que preservam e transmitem saberes das tradições culturais locais. A cada ano, Pernambuco seleciona dez mestres ou grupos capazes de manter as técnicas e conhecimentos ancestrais que fazem parte da identidade cultural da região. Atualmente, 88 nomes seguem ativos nessa categoria, entre eles a artista circense de 82 anos que agora ganha destaque nas telonas com o filme “Mambembe”.
Desde a infância, Índia Morena esteve próxima das tradições populares de Recife, sua cidade natal. Ainda menina, ela ajudava a família catando siris e caranguejos nos manguezais, até que um circo itinerante surgiu no bairro de Afogados, abrindo uma nova porta para o seu futuro. Em 1952, com apenas 9 anos, participou de um concurso de calouros promovido pelo Circo Democratas. Apesar das vaias e ofensas iniciais, sua coragem e sinceridade ao falar sobre a perda do pai e o esforço para sustentar os irmãos conquistaram o público, que a aplaudiu de pé.
Após cantar “Coração materno”, de Vicente Celestino, Índia Morena venceu a competição, ganhando um par de sapatos e tecido suficiente para confeccionar um vestido para ela e duas irmãs. Esse episódio marcou o início de seu amor pelo circo, que se concretizou no ano seguinte, quando conheceu o Circo Itaquatiara e decidiu construir sua vida nos picadeiros.
A Construção de Uma Trajetória Circense que Ultrapassa Fronteiras
Para seguir seu sonho, Índia Morena usou de astúcia para convencer a mãe a deixá-la viajar com a trupe: convidou a dona do circo para ser madrinha de Crisma, abrindo caminho para suas primeiras turnês. Sua arte percorreu não apenas Pernambuco e o Brasil, mas também países como Estados Unidos, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia. Durante décadas, apresentou-se em circos renomados, incluindo Gran Bartolo, Itaquatiara e Edson, este último que se transformaria em seu próprio circo.
Em 1977, após a falência do Circo Edson, Índia Morena recebeu os bens remanescentes da companhia como pagamento pelo trabalho. Junto com o marido, Maviael Ribeiro, reconstruiu o espaço e fundou o Gran Londres Circo, onde pôde aplicar toda sua experiência acumulada. Reconhecida como a melhor contorcionista de Pernambuco, a artista diversificou sua carreira dedicando-se ao canto e à apresentação de espetáculos, atividade que mantém até hoje, ainda que ocasionalmente.
O Gran Londres Circo circulou pela Região Metropolitana de Pernambuco por mais de 40 anos, encerrando suas atividades em 2020, quando Índia decidiu vender o circo para cuidar da mãe adoentada. Atualmente, ela está organizando um museu em sua casa, em Jaboatão dos Guararapes, que documenta sua trajetória e contribuições para a cultura circense regional.
Reconhecimento, Defesa e Legado Cultural
Em 1993, ao completar 40 anos de carreira, Índia Morena e seu marido fundaram a Associação dos Proprietários e Artistas Circenses do Estado de Pernambuco (Apacepe). A entidade atua pela proteção dos artistas do circo e pela organização do acervo das trupes, preservando a memória desse importante segmento cultural.
Esse engajamento contribuiu para que Índia Morena se tornasse patrimônio vivo do estado, uma honraria concedida por edital público e escolhida por um conselho da Fundarpe, órgão ligado à Secretaria de Cultura de Pernambuco. Os artistas contemplados recebem apoio financeiro mensal para que possam continuar suas atividades culturais e transmitir seus saberes.
Hoje, a maior parte do trabalho de Índia Morena está ligada a essa condição de patrimônio vivo. Ela oferece palestras e oficinas em escolas públicas, participa do Festival de Inverno de Garanhuns — que ajudou a fundar —, e do festival Pernambuco Meu País. Seu museu particular, ainda sem data para inauguração, será mais um espaço dedicado à memória e à circulação cultural.
Do Circo ao Cinema: A Nova Fase de Índia Morena
Índia Morena celebra a estreia no cinema com o filme “Mambembe”. Apesar de ser sua primeira vez como protagonista, ela já havia participado como atriz coadjuvante em produções importantes, como o aclamado “Auto da Compadecida”, dirigido por Guel Arraes e baseado na peça de Ariano Suassuna, autor que ela admira profundamente.
Essa passagem para as telas representa uma nova etapa na longa trajetória de uma artista que, desde os picadeiros de Pernambuco, construiu uma carreira que reverbera tanto na cultura local quanto na expressão artística nacional e internacional. O filme e o museu em Jaboatão prometem ampliar o alcance de sua história, conectando o público às raízes do circo e da cultura popular pernambucana.

