Repensando a Empregabilidade no Contexto Global
O debate sobre a intersecção entre trabalho e educação ganha um novo fôlego com as recentes mudanças na política pública da Índia. No Orçamento 2026–2027, o governo indiano não apenas manteve o foco na criação de empregos, mas reposicionou a empregabilidade como um critério central no planejamento nacional. Essa abordagem inovadora reflete um movimento significativo, conforme expresso no Discurso Oficial do Orçamento, onde se propõe a formação de um ‘Comitê Permanente de Educação, Emprego e Empreendedorismo’. O objetivo é integrar educação, qualificação, mercado de trabalho e crescimento econômico, levando em conta o impacto da inteligência artificial sobre os empregos do futuro.
Um aspecto crucial dessa mudança é que ela se origina não apenas em ministérios isolados, mas no próprio núcleo do governo, por meio do orçamento, que serve como um instrumento de coordenação entre diferentes setores. Assim que o orçamento estabelece seu foco, os ministérios tendem a se alinhar em torno dele.
A Escala da Ação Indiana
A Índia enfrenta o desafio da empregabilidade em um dos maiores sistemas educacionais do mundo. Dados do governo indiano revelam números expressivos: aproximadamente 248 milhões de estudantes na educação básica, cerca de 1,47 milhão de escolas e cerca de 9,8 milhões de professores. A educação superior também conta com uma impressionante matrícula de 43,3 milhões de alunos, conforme o All India Survey on Higher Education (AISHE).
No que diz respeito ao mercado de trabalho, a Periodic Labour Force Survey (PLFS) aponta uma taxa de desemprego geral de 3,2% para pessoas de 15 anos ou mais, enquanto a taxa de desemprego entre jovens de 15 a 29 anos é de aproximadamente 10,2%. Esses números ressaltam a urgência da questão: mesmo com crescimento econômico e taxas de desemprego relativamente baixas, a transição entre a educação e o mercado de trabalho permanece um gargalo estrutural para muitos jovens. A resposta da Índia a esse desafio tem sido tratá-lo como uma infraestrutura nacional essencial.
O Cenário Brasileiro: Fragmentação das Políticas
O Brasil, por sua vez, opera em uma escala considerável, mas de forma fragmentada. No Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) 2026, o Ministério da Educação deverá alocar aproximadamente R$ 233,4 bilhões, focando fortemente na educação básica e na complementação da União ao Fundeb, priorizando o acesso e a permanência escolar.
Por outro lado, a política de trabalho no Brasil é sustentada pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), que para 2026 conta com um orçamento de R$ 130,4 bilhões. Desse total, R$ 64,4 bilhões serão destinados ao Seguro-Desemprego e R$ 33,7 bilhões ao Abono Salarial. Embora seja um fundo robusto, sua orientação principal é a proteção de renda após a ocorrência de desemprego, sem um foco claro na reorganização da transição entre educação e trabalho.
A Falta de Conexão e Governança
Dados recentes do IBGE (PNAD Contínua) indicam avanços significativos na ocupação, como uma taxa média de desocupação de 5,6% em 2025 e um recorde histórico de 103 milhões de pessoas ocupadas. No entanto, o sistema brasileiro carece de uma estrutura de governança que integre de maneira contínua orçamento, educação, qualificação, tecnologia e demanda produtiva. Cada área opera em sua própria esfera, e as conexões entre elas dependem de iniciativas pontuais ou articulações locais, o que pode resultar em ineficiências.
A Diferença entre os Modelos
Na Índia, o comitê proposto no orçamento tem atribuições definidas, como mapear lacunas de habilidades por setor, antecipar o impacto da inteligência artificial sobre o emprego, sugerir ajustes curriculares e criar sistemas de correspondência entre formação, vagas e trabalhadores, além de tornar visível o trabalho informal para facilitar a mobilidade e proteção dos trabalhadores.
No Brasil, infelizmente, não há uma instância com esse mandato transversal, que esteja ancorada no orçamento e tenha poder de coordenação sistêmica. A empregabilidade é vista como um objetivo desejável, mas não como uma métrica central que organiza o funcionamento do Estado.
Reflexões Finais
A diferença entre os modelos indiano e brasileiro não é meramente ideológica, mas reflete questões institucionais profundas. A Índia busca reduzir as lacunas históricas entre aprender e gerar valor no mercado de trabalho. No entanto, esse caminho tem seus riscos, como a possibilidade de uma formação excessivamente direcionada, que pode comprometer a autonomia dos estudantes.
O Brasil, por outro lado, corre o risco de manter programas e orçamentos positivos, enquanto milhões de jovens enfrentam dificuldades na transição entre a escola e o trabalho, resultando em uma perda significativa de talentos e potencial humano. A questão que a Índia levanta e que o Brasil ainda não conseguiu abordar de forma eficaz é simples, mas provoca reflexão: Estamos formando cidadãos capazes de sustentar uma carreira ao longo da vida, ou apenas gerenciando etapas desconectadas de um sistema?
Enquanto essa indagação não for colocada como eixo central do Estado, o Brasil continuará avançando, mas com um desperdício considerável de talentos e oportunidades.

