Uma Celebração ao Legado de Coltrane
Considerado uma figura emblemática do jazz, John Coltrane (1926-1967) marcou um novo capítulo na história da música improvisada e na essência da performance musical. Com um domínio técnico ímpar e uma intensidade única ao tocar saxofone, seu legado ressoa até hoje. Para homenageá-lo, acontece a primeira edição de 2026 do projeto “Na Sombra das Mangueiras”, que contará com uma apresentação do Vinicius Mendes Quarteto nesta quinta-feira (30/4), Dia Internacional do Jazz, nos encantadores jardins da Casa Fiat de Cultura.
“Coltrane transforma o jazz e o leva a novos patamares”, afirma Vinicius Mendes. “A profundidade de sua obra reside menos na execução de melodias e mais na forma como ele fez do improviso uma linguagem própria, praticamente criando um idioma para o saxofone, em perfeita harmonia com seu quarteto”, complementa, referindo-se ao icônico grupo que incluía o pianista McCoy Tyner, o baterista Elvin Jones e o baixista Jimmy Garrison.
Homenagear Coltrane em uma apresentação ao vivo é um desafio considerável. Como prestar tributo a um artista cuja essência está no improviso?
Desafiando o Improviso
A resposta do quarteto mineiro, formado especialmente para este evento, que inclui Vinicius Mendes (saxofone e voz), Rodrigo Zolet (piano), Davi de Oliveira (baixo acústico) e André Limão Queiroz (bateria), foi ancorar-se nas estruturas originais enquanto se esquivava de tentativas de reprodução literal. “O jazz é essencialmente improvisado”, enfatiza Vinicius. “Executamos os temas, mas deixamos espaço para a improvisação.”
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A estrutura segue uma forma clássica, com “tema, improviso e tema”. A melodia inicial serve como ponto de partida para uma criação instantânea. Mesmo os trechos mais conhecidos das composições de Coltrane não são reproduzidos de maneira rígida.
A Jornada Musical de Coltrane
Com duração de aproximadamente 60 minutos, o concerto apresenta um apanhado das principais etapas da carreira de Coltrane, transitando do hard bop ao free jazz, passando ainda pelos inovadores “Coltrane changes” e fases modais.
No hard bop, que abrange composições de 1955 a 1959, as músicas apresentam estruturas reconhecíveis, frequentemente inspiradas no blues e no gospel, onde um tema claro serve como base para os improvisos.
Entre 1959 e 1961, período marcado pelos “Coltrane changes”, o artista levou a linguagem harmônica ao extremo, criando sequências complexas de acordes executadas com grande rapidez. Seguindo essa linha, entre 1960 e 1965, ocorreu a transição para a fase modal, caracterizada pela simplificação dos acordes e pela criação de espaços maiores para a improvisação.
Esse período de expansão permitiu um desenvolvimento mais profundo das ideias durante os improvisos, culminando na fase mais radical de Coltrane a partir de 1965, quando começou a se afastar das estruturas tradicionais do jazz, resultando em uma música mais intensa e imprevisível.
O Aspecto Espiritual de Coltrane
Além das inovações técnicas, Vinicius Mendes ressalta a dimensão espiritual que permeia a obra de Coltrane, especialmente a partir de “A Love Supreme”. Essa fase se conecta profundamente com as raízes do jazz, como spirituals, work songs e blues.
No contexto de “A Love Supreme”, a música reflete uma forte relação com a prática religiosa, onde melodias carregadas de emoção e coletividade expressam fé e resistência. As work songs, por sua vez, eram cantadas por trabalhadores afro-americanos, trazendo um ritmo repetitivo que liga o corpo ao som.
Em contrapartida, o blues consolida essa herança musical em uma forma estruturada, centrada na expressão individual e nas vivências cotidianas. Ao integrar esses elementos, Coltrane se aproxima da ideia de expressão coletiva e, por vezes, de busca espiritual.
“Na sua música, é possível perceber uma poética muito próxima do canto”, observa Vinicius Mendes. “Mesmo nas formas mais livres, a presença do blues é marcante”, conclui.
Influência Contemporânea
A herança de John Coltrane permanece viva em diversas vertentes, incluindo a música brasileira. Vinicius Mendes cita o pianista Amaro Freitas como um exemplo de artista que dialoga com essa tradição.
Em sua própria produção musical, Vinicius incorpora características de Coltrane, promovendo liberdade criativa e performance coletiva. “Coltrane, sem dúvida, é um músico que elevou o jazz a um novo patamar”, finaliza o saxofonista.

