Explorando a relação entre fé e literatura
Recentemente lançado no Brasil, o livro “O louco de Deus no fim do mundo” de Javier Cercas, que já conquistou o Prêmio do Livro Europeu, examina a complexa relação entre um escritor ateu — referenciado como o “louco sem Deus” — e o Papa Francisco, o “louco de Deus”. Cercas, que abandonou a fé na adolescência, durante sua jornada literária, conversou com figuras proeminentes do Vaticano sobre a intersecção entre fé e razão. Ele questiona a reação da Igreja à sexualidade e destaca a tentativa de Francisco em tornar a Igreja mais acessível aos fiéis, especialmente aqueles que vivem nas periferias da sociedade. O autor descreve a figura de Jorge Mario Bergoglio como um poço de paradoxos: um líder que, apesar de suas aspirações de humildade, também exibe traços de autoritarismo.
A nova trilogia policial de Cercas
Além de “O louco de Deus no fim do mundo”, outro título recentíssimo de Cercas no Brasil é “Independência”, o segundo livro da trilogia “Terra Alta”. A narrativa é centrada em Melchor Marín, um policial que se torna o herói ao enfrentar os terroristas que perpetraram um atentado na Catalunha em 2017. Nesta nova aventura, Marín é chamado pela prefeita de Barcelona para lidar com chantagistas que ameaçam divulgar um vídeo comprometedor. A obra ressalta a corrupção e os problemas do poder, temas que Cercas explora com frequência, especialmente após a crise que culminou na declaração unilateral de independência da Catalunha naquele mesmo ano.
A visão de Cercas sobre fé e literatura
Em entrevista ao GLOBO, o escritor de 63 anos compartilhou suas reflexões sobre como a escrita de “O louco de Deus no fim do mundo” impactou sua relação com a fé. Cercas admite ter uma aversão à religião, que, segundo ele, é comum entre os espanhóis, devido a um histórico de opressão por parte da Igreja. Contudo, ele encontrou um espaço para simpatizar com o cristianismo, reconhecendo em Cristo uma figura de rebeldia social. Cercas destaca que o conceito de fé é, segundo ele, uma intuição poética, que permite enxergar um sentido onde muitos não conseguem encontrar. Ele menciona que sua mãe possui uma fé genuína, e que a fé de Francisco, embora admirável, parece um pouco menos sólida em comparação.
Literatura como substituto da religião
Quando perguntado se a literatura ocupa o lugar da religião em sua vida, Cercas fez uma análise profunda. Ele argumenta que a literatura pode, em alguns aspectos, substituir a religião, mas sublinha que a religião oferece respostas diretas, enquanto a literatura transforma questões em sua própria resposta. Para ele, ambos compartilham a busca por transcendência e significado.
O heroísmo e a figura do Papa Francisco
Ao discutir a questão do heroísmo, Cercas relaciona a figura de Francisco a essa temática, destacando que ele, apesar de suas ambições e contradições, tentava ser a melhor versão de si mesmo. A complexidade do Papa, segundo o autor, revela um homem que luta internamente e busca um equilíbrio entre suas falhas e seus ideais. Franco, que já foi considerado um radical por muitos, transforma-se em um símbolo de luta e resistência espiritual.
Reflexões sobre a política e os riscos do escritor
Javier Cercas também reflete sobre como seus posicionamentos políticos, especialmente em relação à independência da Catalunha, afetaram sua imagem. Ele se considera uma pessoa controversa, tendo perdido leitores e vínculos pessoais. Contudo, defende que a coragem é fundamental para um escritor, que deve ter o audacioso espírito de se posicionar, mesmo que isso signifique desagradar a alguns. Cercas acredita que a literatura oferece um espaço para expressar impulsos que a sociedade muitas vezes repressa, permitindo que os leitores explorem questões de moralidade e justiça através de seus personagens fictícios.
O nacionalismo e suas implicações
Por fim, o autor discorre sobre o nacionalismo, alegando que se tornou um refúgio para indivíduos de caráter duvidoso. Segundo Cercas, a palavra “pátria” se desvirtuou ao longo do tempo e não representa mais o que deveria. Para ele, o conceito original de pátria está ligado ao afeto e à comunidade, e é isso que ele busca resgatar através de sua escrita, ao mesmo tempo que reflete sobre suas próprias experiências e perdas.

