A Reconfiguração Política na Região
O cenário político da América Latina, conhecido por sua fragmentação, tem se mostrado um desafio significativo para a diplomacia brasileira sob a liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Desde que iniciou seu terceiro mandato em 2023, Lula tem tentado reafirmar o protagonismo do Brasil na região, focando em diálogo e mediação para mitigar tensões e reestabelecer mecanismos de coordenação política. No entanto, interlocutores do governo reconhecem que os resultados desejados ainda estão longe de ser alcançados. Recentemente, a intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela destacou os limites da atuação diplomática brasileira.
A crise venezuelana exemplifica as dificuldades enfrentadas por Lula ao tentar reverter o isolamento da Venezuela. O presidente brasileiro promoveu um encontro com Nicolás Maduro em Brasília, em maio de 2023, na esperança de reintegrar Caracas ao diálogo regional. Contudo, esse esforço se esbarrou na dificuldade de se construir consensos, levando um embaixador a afirmar que reunir presidentes da região se tornou quase um “milagre”.
Desafios para o Futuro
A previsão do governo para 2026 indica que o cenário político será ainda mais desafiador, especialmente devido às eleições em nações estratégicas como Brasil, Colômbia e Peru. Esse contexto eleitoral tende a dificultar avanços diplomáticos significativos. A estratégia do Palácio do Planalto busca recuperar o protagonismo por meio da defesa da soberania dos Estados e do Direito Internacional, além de uma clara rejeição a intervenções armadas como pilares da política externa.
Nos últimos anos, o governo tentou reposicionar o Brasil como um moderador no continente, revitalizando a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e apresentando o Consenso de Brasília em cúpulas presidenciais. Entretanto, a Unasul continua fragilizada, o Consenso de Brasília não gerou ações concretas, e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) permanece dividida, sem respostas eficazes para crises, como a da Venezuela.
A Fragilidade da Diplomacia Brasileira
O esforço de reaproximação com a Venezuela revelou-se infrutífero, já que o Brasil não conseguiu induzir mudanças significativas na postura do regime de Maduro, tampouco propôs condições políticas para uma aceitação regional. O impacto da recente mudança de poder em Caracas, com a ascensão da presidente interina Delcy Rodríguez, deverá ser observado, especialmente em relação ao aumento do comércio e investimentos bilaterais.
A complexidade do contexto político na América Latina reflete a dificuldade do Brasil em articular seus interesses. Governos de esquerda ou centro-esquerda, como os do Brasil, Colômbia, México e Uruguai, coexistem com uma significativa quantidade de governos de direita e centro-direita, como os da Argentina, Paraguai, Peru e Equador, que tendem a alinhar-se mais estreitamente aos Estados Unidos em questões estratégicas.
A Fragmentação das Alianças Regionais
A fragmentação política na região se intensificou após as eleições em 2022, com a ascensão de José Antonio Kast no Chile e Rodrigo Paz na Bolívia, dois países que anteriormente eram considerados aliados do Brasil. Essa mudança política representa uma inflexão significativa na dinâmica regional, dificultando ainda mais a construção de consensos.
A cientista política Denilde Holzhacker, da Escola Superior de Propaganda e Marketing, ressalta que a crise na Venezuela evidenciou as dificuldades da liderança brasileira. “A situação da Venezuela deixou claro o quanto se tornou difícil exercer liderança regional”, afirmou.
Para Roberto Goulart Menezes, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, a crise venezuelana se tornou um teste crucial para a diplomacia regional, evidenciando a fragilidade das coordenações políticas no continente. Ele observa que a ausência de consulta dos Estados Unidos ao Brasil antes de ações militares na região expôs a falta de influência do Brasil em um cenário onde países como Paraguai, Argentina e Equador apoiaram a intervenção americana.
Assim, conforme as complexidades internas e externas à política brasileira se entrelaçam, o país enfrenta uma autonomia cada vez mais limitada na América do Sul, pressionado por fatores geopolíticos e por um ambiente político interno que se aproxima das eleições.

