Uma Nova Leitura de ‘Quincas Borba’
No ano em que ‘Quincas Borba’ celebra 135 anos desde sua publicação, a nova biografia de C.S. Soares, intitulada ‘Machado — O Filho do Inverno’, nos convida a reexaminar as raízes do renomado autor. A combinação de sua prosa e a influência social do período em que viveu revelam uma relevância impressionante nos dias de hoje. A chegada da família Real ao Brasil em 1808, acompanhada pelas tropas inglesas, não apenas transformou a relação entre a colônia e a metrópole, como também fez do Rio de Janeiro um centro de efervescência social, onde novos costumes e oportunidades se entrelaçavam. Essa revolução social, que remodelou a cidade, era refletida nas obras de Machado, que capturava o espírito do seu tempo.
Conforme ressalta Rosa Belluzzo em ‘Machado de Assis: Relíquias Culinárias’, o Rio de Janeiro começou a florescer, dando espaço a uma nova sociabilidade urbana, marcada por cafés, restaurantes e teatros. A escrita afiada de Machado registrava essa transformação, descrevendo desde mesas à francesa até ingredientes como manteiga importada e chá aristocrático. Um exemplo notável disso pode ser observado em ‘Quincas Borba’, onde o personagem Rubião, ao herdar uma fortuna, se instala em Botafogo e realiza uma escolha significativa: ao invés de buscar conhecimento formal, ele contrata um cozinheiro, um francês chamado Jean. Essa decisão não é trivial, pois Jean simboliza a autoridade cultural que Rubião, um ex-professor de Barbacena, não possui.
A Hierarquia Social nas Mesas Cariocas
Além de Jean, outros aspectos da hierarquia social estão presentes nas páginas de Machado. Em uma passagem, é descrito como um criado espanhol servia café em uma bandeja de prata. Rubião, relutante em aceitar um criado de origem estrangeira, revela suas preferências por crioulos, evidenciando a resistência à mudança. Essa hierarquia é clara: o francês no comando, o espanhol na sala e o brasileiro negro relegado a funções menores. A mesa se torna um microcosmo das relações sociais da época, onde o status era frequentemente definido pela origem dos cozinheiros e serventes.
A transformação dos hábitos alimentares na sociedade carioca é outro tema abordado por Machado. Thaina Schwan Karls destaca que entre 1854 e 1890, o restaurante se estabeleceu como um novo centro de sociabilidade no Rio, substituindo as refeições caseiras por experiências gastronômicas públicas. Nessa nova ordem, o autor capta a evolução das relações sociais, onde os cariocas começam a se exibir à mesa, com refeições que agora se tornavam eventos sociais.
A Comida como Instrumento de Poder
Em ‘As Bodas de Luís Duarte’, Machado explora o casamento como um mero prelúdio para a ceia, onde o fervor religioso rapidamente se transforma na expectativa em torno da comida. O que poderia ser visto como uma ‘democracia do estômago’ revela-se uma ironia: diante da fartura, as distinções sociais podem ser silenciadas, embora isso não signifique igualdade. O champanhe, por sua vez, simboliza a nova burguesia carioca que se familiariza com palavras estrangeiras e a leitura do mundo a partir de rótulos e status.
A relação entre a gastronomia e a vida urbana no Rio de Janeiro é marcada por uma tensão constante entre as mesas requintadas e a cultura popular. Enquanto as mesas adornadas com toalhas de linho e prataria conversavam em francês, a vida nas ruas do Rio falava uma língua totalmente diferente. Machado, com sua habilidade única, consegue refletir essa dualidade, mostrando personagens que discutem política enquanto experimentam as transformações sociais que ocorrem ao seu redor.
Ao revisitarmos ‘As Bodas de Luís Duarte’ ou acompanharmos a trajetória de Rubião, fica evidente que a comida, para Machado, é muito mais do que uma simples descrição de sabores. Ele se preocupa em revelar quem consome, quem saboreia, e como as interações sociais se desenrolam à mesa. O autor não se detém nas receitas, mas sim nas regras sociais que regem esses momentos, onde a etiqueta e o olhar avaliador dos convidados tornam-se protagonistas.
A Literatura Confeitológica de Machado
Em uma de suas crônicas, Machado referiu-se ao ‘doce de coco e à compota de marmelos’ como o princípio social do Rio de Janeiro, cunhando o termo ‘literatura confeitológica’ para descrever as obras então recentes sobre doçaria. Ele refletiu sobre como, no passado, as damas dançavam apenas uma vez ao ano, mas diariamente se dedicavam a fazer doces, evidenciando como esses hábitos moldaram a sociedade carioca. A intersecção entre a gastronomia e a vida social, portanto, torna-se uma lente através da qual podemos compreender a complexidade das relações no Brasil do século XIX.

