Um Desvio entre Isolacionismo e Intervencionismo
A política externa do ex-presidente Donald Trump representa uma fusão problemática de isolacionismo e intervencionismo, resultando em um cenário desastroso tanto para os Estados Unidos quanto para a comunidade global. Ao assumir a presidência, Trump se destacou como um fervoroso defensor do isolacionismo com sua proposta ‘América Primeiro’, que priorizava questões internas e minimizava o envolvimento em conflitos internacionais.
Entretanto, essa abordagem logo começou a alienar aliados históricos. Sua retórica agressiva contra a Europa e as ameaças de abandono da OTAN, que historicamente serviu como um bastião contra a agressão russa desde o fim da Segunda Guerra Mundial, geraram preocupações palpáveis. A OTAN tinha sido um pilar fundamental na busca pela paz na Europa até a dissolução da União Soviética em 1991, marcando o fim da Guerra Fria.
O recente conflito na Ucrânia, impulsionado pela invasão russa sob a liderança de Vladimir Putin, não poderia ser ignorado. Enquanto os republicanos tradicionais alertariam sobre as consequências desse ataque, Trump demonstrou desinteresse, sentindo-se traído por Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, que não o apoiou em sua disputa contra Joe Biden. No mundo de Trump, pouco importava se a Rússia avançasse sobre a Ucrânia.
Após a Segunda Guerra Mundial, os EUA e a Europa se apresentaram como defensores da democracia e dos direitos humanos, embora muitas vezes suas ações contradissessem essa imagem, com alianças feitas com ditadores que atendiam a interesses políticos e econômicos. Sob a administração Trump, essa retórica desapareceu, deixando de lado a fachada de preocupação com a democracia e os direitos humanos para um governo que não se importava com refugiados ou vítimas de desastres naturais.
Desestabilização da Ordem Econômica Global
O lema ‘América Primeiro’ também teve impactos significativos na economia global. Trump desafiou a ordem econômica estabelecida que promovia o livre comércio como ferramenta para combater a pobreza e estimular a integração econômica. Embora o livre comércio tenha beneficiado muitos, também devastou pequenos agricultores no Sul Global e trabalhadores industriais nos EUA.
Economistas não previram adequadamente as repercussões sociais e políticas de suas decisões, deixando milhões em uma situação vulnerável. Em resposta ao descontentamento dos trabalhadores industriais, Trump adotou medidas como a restrição da imigração, o rompimento de acordos comerciais e a implementação de tarifas. Essa abordagem não apenas afastou aliados, mas também gerou um caos econômico ao desestabilizar as cadeias de suprimento existentes.
A ordem econômica global pré-Trump não era perfeita, mas as soluções drásticas propostas pelo ex-presidente resultaram em um cenário econômico caótico. Os agricultores americanos enfrentaram a perda de mercados externos e a escassez de trabalhadores imigrantes, enquanto os custos de matérias-primas e peças importadas dispararam. Além disso, a política de isenção tarifária favoreceu aliados políticos de Trump, enquanto consumidores e pequenas empresas arcaram com os custos.
Intervencionismo Militar e suas Consequências
Recentemente, Trump adotou uma postura intervencionista, contrariando sua própria narrativa de evitar guerras estrangeiras. O ataque à Venezuela, culminando no sequestro de Nicolás Maduro, evidencia essa mudança. Embora tal ação tenha sido realizada com táticas militares precisas, as consequências permanecem incertas. Trump anunciou que os EUA iriam governar temporariamente a Venezuela, o que caracteriza uma clara intervenção.
A crença de Trump de que poderia intimidar Caracas sem custos significativos parece ingênua, considerando que os aliados de Maduro ainda têm controle sobre o governo e as forças armadas. Uma intervenção militar mais ampla exigiria o envio de tropas, semelhante ao que ocorreu no Iraque. Caso opte por bombardear o governo venezuelano, o resultado poderá ser um estado de caos, semelhante ao que aconteceu na Líbia.
Com uma visão que ignora a verdadeira vitória nas eleições venezuelanas, Trump parece focar apenas no petróleo e nos interesses econômicos. Contudo, a falta de disposição das empresas petrolíferas americanas em investir na produção venezuelana, devido à instabilidade, levanta questões sobre a viabilidade desse plano. O petróleo da Venezuela, com elevado teor de enxofre, é menos competitivo em comparação ao petróleo Brent, que apresenta preços mais baixos no mercado.
Uma Abordagem Prejudicial para os EUA e o Mundo
A guerra promovida por Trump é, de fato, ilegal e imprudente, gerando não apenas danos à Venezuela, mas também prejudicando os interesses dos Estados Unidos. Mais preocupante é o fortalecimento das ações de Putin na Ucrânia e a possibilidade de a China se sentir encorajada a agir contra Taiwan e outras nações asiáticas.
A combinação de isolacionismo e intervencionismo sob a gestão de Trump representa um sério retrocesso nas relações internacionais e na segurança global. Em contrapartida, o Papa Leão XIV defende que as relações entre países devem ser fundamentadas na verdade, justiça e paz. Durante uma recente oração do Angelus, o Papa sublinhou a importância de respeitar a soberania da Venezuela e garantir os direitos humanos, expressando preocupação com a difícil situação econômica que o povo venezuelano enfrenta.
O Vaticano anteriormente alertou os EUA sobre os riscos de intervenções, como no caso do Iraque, mas a história parece estar se repetindo com os mesmos erros, colocando a Venezuela à mercê de uma nova crise. Resta saber se aprenderemos com o passado ou repetiremos os mesmos equívocos.

