Uma Tragédia Marcante na História da Saúde
“Meu deus, ele vai morrer”. Essas foram as palavras de Nádia Pereira ao perceber a preocupação com seu irmão, Edelson Pereira, de apenas 28 anos, que estava em tratamento de hemodiálise há nove anos no Instituto de Doenças Renais (IDR) em Caruaru, Pernambuco. Durante o carnaval de 1996, a situação de Edelson se agravou, levando-o a ser transferido rapidamente para o Hospital Barão de Lucena, em Recife. Infelizmente, ele não sobreviveu.
Esse tragédia não foi um caso isolado. Ao longo do ano de 1996, outras mortes seguiram, deixando famílias desoladas. Entre o dia 20 de fevereiro, quando a primeira morte foi registrada, até dezembro do mesmo ano, 60 pacientes faleceram devido a insuficiência hepática aguda, e cerca de 130 pessoas foram intoxicadas. Este evento ficou conhecido como a Tragédia da Hemodiálise de Caruaru.
“Saudade é uma doença que não tem cura”, declarou Amara Maria do Nascimento, mãe de Elizabeth, que também foi uma das vítimas fatais. Elizabeth entrou na clínica para realizar a hemodiálise e, poucos minutos após iniciar o tratamento, faleceu após pedir ajuda à sua mãe.
Identificando a Causa da Tragédia
A identificação do que causou essa tragédia foi um marco na medicina renal. A Prof. Dra. Sandra Azevedo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), recorda que a dor daquele período é difícil de esquecer. Através de uma ligação à Secretaria de Saúde de Pernambuco, ela levantou a hipótese de contaminação por microcistina, uma toxina hepatotóxica produzida por cianobactérias.
O fato de a Secretaria de Saúde ter retido amostras do carvão ativado usado na clínica foi fundamental. As análises revelaram concentrações de microcistina-LR em vários materiais, incluindo o filtro de carvão e o sangue dos pacientes. A pesquisa também apontou que a gravidade dos casos variava de acordo com a presença de outras doenças nos pacientes intoxicados.
Impactos e Mudanças no Tratamento
O nefrologista Dr. Ericson Gouveia, que atuava como residente no Hospital de Clínicas, acompanhou a transferência dos pacientes contaminados e foi uma testemunha das mudanças subsequentes no tratamento de hemodiálise. Ele destaca que, antes de 1996, o controle dos equipamentos de hemodiálise era feito manualmente. Desde então, novas máquinas e protocolos foram desenvolvidos para melhorar a segurança do tratamento.
Como resultado direto dessa tragédia, foi elaborada a Portaria nº 2.042, de 11 de outubro de 1996, que regulamentou o funcionamento dos Serviços de Terapia Renal Substitutiva, estabelecendo normas rigorosas para o monitoramento da água utilizada nos tratamentos.
“Graças a esse evento, o Brasil se tornou o primeiro país a exigir o monitoramento de cianobactérias na potabilidade da água para consumo humano, superando, inclusive, as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS)”, explica a Prof. Dra. Sandra.
Avanços e Desafios Atuais
Além da regulamentação, outras resoluções da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) foram implementadas, vislumbrando melhorar as práticas de funcionamento dos serviços de diálise. A segurança no procedimento dialítico tem avançado consideravelmente, com a adoção de novas tecnologias que asseguram a qualidade da água utilizada.
A Dra. Flávia Letícia Carvalho Gonçalves, do Hospital Sírio-Libanês, ressalta que sistemas modernos de tratamento de água têm reforçado essa segurança, incluindo técnicas como a dupla osmose reversa e a utilização de filtros de endotoxinas. A hemodiafiltração, que combina difusão e convecção, também se tornou uma prática comum, garantindo água ultrapura para os pacientes.
Atualmente, cerca de 170 mil brasileiros realizam hemodiálise, mas a Dra. Flávia aponta que ainda existem desafios na diversidade geográfica do país. Unidades de hemodiálise em regiões remotas enfrentam dificuldades, pois a água é frequentemente captada de reservatórios naturais, necessitando de monitoramento mais rigoroso.
Reflexões Finais
A Prof. Dra. Sandra adverte que os recursos hídricos do Brasil continuam a ser ameaçados. O saneamento nas cidades não avançou na velocidade necessária, e a contaminação da água é uma preocupação constante, especialmente em relação a substâncias como nanoplásticos e antibióticos. “O caso de Caruaru foi emblemático, mas muitos outros problemas de contaminação permanecem sem solução”, conclui.
A Tragédia da Hemodiálise de Caruaru não só marcou a história da medicina no Brasil, mas também proporcionou lições valiosas que continuam a impactar a saúde pública até os dias de hoje.

