Transformação na Educação Médica
Em dezembro, a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no campus de Caruaru, deu início a uma turma de Medicina que promete revolucionar a formação de profissionais de saúde no Brasil. Um detalhe chama a atenção: os 80 estudantes selecionados não passaram por vestibular. As vagas foram destinadas exclusivamente a quilombolas e assentados da reforma agrária, por meio do Programa Nacional de Educação para Áreas de Reforma Agrária (Pronera).
A medida gerou um intenso debate na sociedade. O assunto rapidamente se transformou em uma polêmica, com ações judiciais, discursos acalorados na Assembleia Legislativa e protestos que questionavam os conceitos de “privilegiados” e “injustiça”. Contudo, a discussão se restruiu à legalidade do processo seletivo, ignorando uma questão fundamental que o Sistema Único de Saúde (SUS) levanta há mais de três décadas: por que as universidades brasileiras formam tantos profissionais que se sentem estrangeiros em seu próprio país?
Esses profissionais, embora diplomados, muitas vezes não conhecem a realidade das comunidades que estarão atendendo. Eles podem ter amplo conhecimento sobre anatomia e protocolos de atendimento, mas carecem de entendimento sobre os determinantes sociais que afetam a saúde de populações vulneráveis. Assim, enquanto se tornam especialistas em um segmento da saúde, se tornam analfabetos em relação ao território e à cultura local.
Desafiando as Normas Tradicionais
A estrutura educacional convencional é frequentemente vista como um “cárcere disciplinar”, onde os alunos são confinados em grades curriculares rígidas. Em um ambiente assim, cada especialidade médica é tratada de forma isolada, com o coração em um departamento e a saúde mental em outro. A cultura, a história e o território onde as comunidades estão inseridas não fazem parte do processo pedagógico. O resultado é um modelo de formação que prioriza a medicina hospitalar e urbana, negligenciando a saúde integral e o cuidado.
O curso implementado pelo Pronera na UFPE propõe uma abordagem inovadora. Ao invés de iniciar a formação com disciplinas técnicas como bioquímica ou anatomia, os alunos são desafiados a responder uma pergunta prática: como cuidar da saúde em lugares onde não há médicos? Esses estudantes já trazem respostas implícitas em seu cotidiano, pois vivem as realidades das comunidades que representam. Eles não precisam de uma disciplina de “humanidades” para compreender que fatores como a seca, a falta de acesso a postos de saúde e a insegurança fundiária são determinantes na saúde de seus territórios.
O Debate sobre Mérito e Inclusão
Os opositores da iniciativa frequentemente levantam questões sobre o “mérito” dos alunos. Mas que mérito é esse que, ao longo de gerações, falhou em proporcionar saúde digna para as regiões mais afastadas do Brasil? O vestibular tradicional, que se apresenta como um processo neutro, acaba por ser um mecanismo de exclusão geográfica e social. Ele privilegia aqueles que dominam um tipo específico de conhecimento, muitas vezes desconectado das necessidades reais da população.
A defesa do edital pela Advocacia-Geral da União e a autorização do processo pelo Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5) representam conquistas significativas. No entanto, a verdadeira luta é pedagógica e política, envolvendo a definição do propósito da universidade pública. Ela deve servir para perpetuar uma elite profissional que acaba migrando para o setor privado ou se reinventar para enfrentar os desafios urgentes do Brasil?
Um Novo Modelo de Formação
Enquanto a medicina convencional frequentemente transforma profissionais em indivíduos que veem o diploma como um passaporte para o setor privado, os alunos de Caruaru estão criando um compromisso social que orientará suas carreiras. A formatura dessa turma não será um ponto final, mas o começo de uma jornada com foco no SUS, principalmente nas áreas mais carentes. Eles não serão “missionários” temporários; ao contrário, emergirão como profissionais enraizados em suas comunidades.
O debate em torno dessas 80 vagas vai além da quantidade; trata-se de 80 sementes que podem plantar um modelo diferente de formação médica. Um modelo que compreende que, para resolver a escassez de médicos no Nordeste, não é suficiente importar soluções superficiais. É preciso cultivar a “vegetação nativa”, apta a florescer em solos áridos.
O Brasil necessita urgentemente de mais iniciativas como a da UFPE, que promovam cursos de Medicina voltados para populações indígenas na Amazônia, ribeirinhos no Pantanal e comunidades nas periferias urbanas. Em suma, é essencial que a educação em saúde deixe de produzir profissionais desconectados e comece a formar cidadãos comprometidos com o SUS.
O experimento em Pernambuco está apenas começando e será cuidadosamente observado e avaliado. No entanto, ele já cumpre uma função crucial: demonstrar que a porta do cárcere disciplinar não está trancada, mas simplesmente fechada por uma falta de coragem política para ser aberta.

