Valorização da Identidade Quilombola através da Educação
No dia 30 de maio de 2025, a Comunidade Quilombola de Carapotós, localizada em Caruaru, Pernambuco, alcançou um marco significativo ao receber a certificação da Fundação Cultural Palmares. Este reconhecimento representa não apenas um novo momento para os moradores do Sítio Carapotós, mas também um passo importante na consolidação da resistência e fortalecimento da identidade cultural quilombola.
O professor Jonathan Arruda, morador e defensor da comunidade, explica: “Nós sempre escutamos muitas histórias das pessoas mais velhas da comunidade e, por meio de uma pesquisa de campo em parceria com cientistas, elaboramos um relatório que foi enviado à Fundação Palmares”. Graduado em História e Geografia, Arruda enfatiza que a educação é crucial para o fortalecimento da identidade quilombola e, motivado por essa necessidade, ingressou no curso de Licenciatura em Educação Escolar Quilombola da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Jonathan destaca a importância de mobilizar a comunidade em torno de políticas públicas de educação: “Como liderança comunitária, nosso papel é sensibilizar as pessoas para a importância da educação e das oportunidades que surgem”. Além dele, outros três moradores de Carapotós se juntaram a essa jornada educacional.
Iniciativas Educacionais Inovadoras para Quilombolas
A Licenciatura em Educação Escolar Quilombola é uma das iniciativas pioneiras no Brasil, anunciada no segundo semestre de 2024. O objetivo é oferecer formação docente específica para as populações quilombolas do estado. Juntamente com a UFPE, a Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e a Universidade Federal de Sergipe (UFS) também lançaram cursos voltados para essa comunidade em 2024 e 2025, respectivamente.
Este curso, que teve início em julho de 2025, presta uma homenagem ao intelectual quilombola Antônio Bispo dos Santos, conhecido como Nêgo Bispo. Considerado uma das vozes mais influentes do movimento quilombola no Brasil, Nêgo Bispo foi filósofo, escritor e ativista político, autor de obras que discutem a contracolonização e a valorização das culturas marginalizadas. Seu legado continua a impactar a educação e a conscientização sobre as lutas quilombolas.
Com uma proposta de educação descentralizada, a formação da UFPE integra a pedagogia da alternância, que propõe que os alunos alternem entre a universidade e a vivência nas comunidades quilombolas. O professor Sandro Guimarães, doutor em Antropologia, explica: “Esse modelo permite a articulação entre conhecimentos acadêmicos e a vivência prática nos quilombos, criando um curso intercultural e diferenciado”.
Desafios e Oportunidades na Formação Docente
A licenciatura, com duração de oito semestres, é fruto de uma colaboração com o Instituto Federal de Pernambuco e o Instituto Federal do Sertão Pernambucano, com o apoio da Coordenação Estadual de Articulação das Comunidades Quilombolas. Essa estruturação viabiliza que as aulas sejam realizadas em diferentes localidades de Pernambuco, como Garanhuns, Santa Maria da Boa Vista, Caruaru e Recife.
O foco do curso é a formação inicial de professores, possibilitando também que docentes já atuantes em escolas quilombolas obtenham a titulação necessária. Ao concluir a formação, os egressos estarão aptos a atuar em diversas modalidades de ensino, com ênfase nos anos iniciais do ensino fundamental e em áreas como Pedagogia, Matemática, Ciências da Natureza e Ciências Sociais.
Atualmente, a licenciatura conta com 100 alunos matriculados em um modelo de entrada única, em que a convocação para novas turmas ocorre apenas após a conclusão da primeira. Segundo Guimarães, esse formato foi inspirado no modelo do curso Intercultural Indígena da UFPE, que também começou com uma única entrada.
Desafios de Racismo e Inclusão na Universidade
A recente criação de uma turma de Medicina vinculada ao Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) na UFPE gerou polêmica, com críticos acusando a iniciativa de privilegiar assentados e quilombolas. Este discurso de desinformação e preconceito desencadeou desentendimentos que chegaram aos tribunais, embora a abertura do curso tenha ocorrido em dezembro de 2025.
Infelizmente, a resistência à inclusão de estudantes quilombolas nas universidades revela um cenário de privilégio no acesso à educação superior no Brasil. Jonathan Arruda menciona que muitos membros da comunidade ainda hesitam em ocupar esses espaços acadêmicos. Ele afirma: “É um trabalho contínuo convencer as pessoas de que a universidade é um lugar que pertence a todos nós, e estamos avançando, já promovemos ações significativas em apenas um semestre”.
Os casos de racismo enfrentados por alunos da Licenciatura em Educação Escolar Quilombola são um reflexo da resistência e ignorância que ainda permeiam as instituições. Guimarães revela que, no primeiro semestre do curso, foram registradas denúncias de discriminação, evidenciando que a universidade precisa aprender a lidar melhor com a diversidade. “Infelizmente, os professores e alunos não estão totalmente preparados para essa realidade”, lamenta.
Compreendendo esses desafios, a formação de professores não é apenas uma questão técnica, mas também envolve dimensões éticas e políticas, reconhecendo a dívida da universidade com as comunidades que historicamente foram marginalizadas. O curso procura integrar conhecimentos acadêmicos e práticas que respeitem e valorizem as epistemologias das comunidades quilombolas.

