Um Olhar Crítico sobre a Política Atual
A sociedade contemporânea enfrenta um desafio persistente: a crença equivocada de que é possível escapar da política. Essa ideia, que se espalha como uma má compreensão disfarçada de prudência, sugere que a vida pública é um espaço do qual podemos nos afastar, como se fôssemos meros espectadores em um teatro de ações previsíveis. Contudo, é essencial entender que a política não é um lugar para se evitar, mas sim a rede de decisões que influencia o cotidiano de todos, afetando, diretamente, a vida coletiva. Ignorar a política não extingue suas consequências; pelo contrário, a vida pública é um reflexo do que somos e do que decidimos não fazer.
A sociedade pode estar inundada de informações e dados, mas isso não garante o entendimento necessário para cultivar um senso de pertencimento. A desconfiança nas instituições cresce quando as relações sociais se tornam meros contratos de conveniência. Essa crise de vínculos, como destaca o atual primeiro-ministro canadense Mark Carney, é mais do que uma simples crise de opinião; é um profundo rompimento social. A desconexão entre as pessoas gera um espaço fértil para a desumanização, transformando a política em um jogo perigoso.
A Importância da Memória Cívica
A memória, ao contrário da nostalgia, se torna uma ferramenta essencial para a política. É através dela que conseguimos avaliar promessas e resultados, discernir entre o que é justo e o que é desvio. O Estado não foi concebido para ser um mero entorpecedor de interesses privados; sua função deve ser a de garantir a justiça e a proteção dos cidadãos. Sem essa memória coletiva, a sociedade se torna presa de uma repetição contínua de indignações vazias, onde a indignação se transforma em ruído, mas não em ação.
Entretanto, um dos maiores inimigos dessa memória cívica é a tentação de se tornar um mero espectador. Aqueles que se consideram superiores, acreditando que a corrupção e a degradação decorrem da incompetência dos atores, ignoram que se omitir do palco político apenas contribui para o fortalecimento de práticas nocivas. A figura do “homem supérfluo”, como descrita por Ivan Turguêniev, ilustra bem essa situação: ele possui capacidade de julgamento, mas se recusa a agir. Essa inação, então, se transforma em irrelevância, que é uma das maiores tragédias que um cidadão pode enfrentar.
A Ação como Responsabilidade Coletiva
A inação, muitas vezes vista como uma forma de proteção, não é uma posição neutra. Na política, abster-se de agir é, na verdade, conceder espaço para que os extremos ocupem o vácuo deixado pelos moderados. Essa dinâmica cria um ambiente onde o cinismo se torna um método de governar, levando a uma desmoralização das instituições. O desprezo pela ética e pela transparência não é um fenômeno isolado, mas um padrão que se repete, revelando uma sociedade que se acostuma a viver na ausência de vergonha pública.
Citando o escândalo dos descontos indevidos no INSS, temos um exemplo claro de como a vulnerabilidade pode ser explorada para fins econômicos. A degradação ética das instituições judiciais também se destaca, levantando preocupações sobre a credibilidade do sistema. Quando a justiça é vista como transacionável, o direito perde seu papel e se transforma em uma mercadoria. A consequência disso é a desintegração da confiança nas instituições sociais, fazendo com que a vida pública se torne um espaço onde a dignidade é constantemente negociada.
A Mobilização das Entidades Jurídicas
Em meio a esse cenário desolador, é encorajador ver a mobilização de entidades como a OAB, a AASP e o IASP, que se uniram para lutar por uma ética mais rigorosa no Judiciário e na administração pública. O IASP, em particular, lançou um diagnóstico sobre as disfunções do STF, ressaltando a importância da transparência e da accountability como direitos fundamentais. Essa iniciativa é um passo crucial para que os sentimentos de impotência se transformem em ação política efetiva.
Não é necessário ser um herói para fazer a diferença. O que se requer é constância, uma disposição para não normalizar o que é inaceitável. A luta por instituições mais justas e transparentes exige que os cidadãos não aceitem passivamente a degradação do espaço público. Ao exigir que a justiça seja austera e que os sistemas financeiros sejam fiscalizados, estamos defendendo um pacto social que, por sua vez, sustenta a coletividade.
A Questão Central: O Que Queremos para o Futuro?
A reflexão final que se impõe é: o que desejamos ser em nosso tempo? A acomodação e a inação não são opções viáveis. Cada pequena desistência abre caminho para a próxima e, nesse ciclo, a sociedade se acostuma com práticas antes consideradas inaceitáveis. Portanto, a escolha está diante de nós: ser um participante ativo da política ou um observador impotente. A liberdade e a cidadania demandam um esforço contínuo, e a responsabilidade é coletiva.

