Análise das Preocupações Políticas e Econômicas
No segundo semestre de 2022, em colaboração com colegas de diferentes partes da América Latina, realizei uma pesquisa destinada a captar as percepções de empresários e executivos sobre o cenário econômico e político até 2026. Através de um questionário abrangente, abordamos temas cruciais como a economia global, o uso de inteligência artificial e a importância da cultura organizacional.
O levantamento envolveu 160 empresas de diversos setores espalhadas por sete países: Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Equador, México e Peru, respeitando a proporção do tamanho de suas economias. Ao final da pesquisa, ao questionar quais eram as maiores preocupações dos entrevistados, a “política local” se destacou como a principal inquietação.
Esse resultado é compreensível em uma América Latina marcada por constantes oscilações políticas e institucionais. Nos países democráticos da região, a alternância entre líderes de diferentes espectros ideológicos, como conservadores e progressistas, tende a ter impactos limitados nas decisões corporativas. No entanto, na América Latina, a dinâmica é diferente; mudanças na liderança do Executivo podem influenciar diretamente o ambiente de negócios.
Impacto das Eleições no Ambiente Empresarial
Atualmente, o México vive um período de estabilidade sob a presidência de Cláudia Sheinbaum, que assumiu o cargo em outubro de 2024. Até o momento, as relações entre o governo e os agentes econômicos permaneceram tranquilas. Contudo, essa sensação de calmaria não é compartilhada por outras nações da região.
A Colômbia e o Brasil, por exemplo, enfrentam uma intensa polarização político-ideológica em um ano eleitoral, com eleições presidenciais marcadas para maio e outubro, respectivamente. Essa tensão está afetando o comportamento dos setores produtivos, levando muitas empresas a adotar uma postura cautelosa. Os empresários, em muitos casos, têm desacelerado investimentos e contratações, aguardando a definição dos resultados eleitorais antes de tomar decisões estratégicas.
Um evento trágico que elevou ainda mais a temperatura política na Colômbia foi o assassinato do senador Miguel Uribe, que era um dos favoritos na corrida eleitoral de 2025. O incidente ocorreu em agosto de 2025, durante um evento público, complicando ainda mais o cenário já polarizado.
No Brasil, a situação é igualmente preocupante. Com a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, os empresários estão cada vez mais alarmados com os altos juros, a deterioração da saúde fiscal do governo e a crescente tensão entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. O próximo presidente que assumir o Palácio do Planalto enfrentará desafios significativos, independentemente de quem seja, tendo que lidar com as movimentações do lado opositor.
Transformações e Desafios na Argentina e Outros Países
Na Argentina, a ex-presidente Cristina Kirchner encontra-se em prisão domiciliar, enquanto o atual presidente, Javier Milei, acaba de superar um desafiador embate no Congresso, que resultou na aprovação de uma reforma trabalhista inédita. Essa mudança promete aliviar algumas preocupações dos empregadores, mas não elimina a pressão exercida pelas influentes forças peronistas, que se opõem ao novo cenário e se sentem ameaçadas pela redução do poder dos sindicatos.
No Equador, a situação também é tumultuada. O candidato presidencial Fernando Villavicencio foi assassinado em agosto de 2023 durante um comício, um episódio que refletiu a crescente violência política na região. Daniel Noboa assumiu a presidência em meio a um clima de incertezas, tendo substituído Guillermo Lasso, que renunciou após manobras para evitar um impeachment. Noboa foi reeleito em 2025, mas enfrenta críticas de sua principal rival sobre supostas irregularidades no processo eleitoral.
Por sua vez, no Chile, o retorno de José Antonio Kast ao poder, após quatro anos de governo de Gabriel Boric, também traz desafios. O clima de desconfiança entre os dois líderes é palpável, e as divergências em suas visões políticas, que vão desde questões econômicas até procedimentos institucionais, podem complicar a transição.
No Peru, a instabilidade política persiste, com a recente posse de um novo presidente provisório, o nono em uma década, em uma solução interna do Congresso. Os peruanos aguardam as eleições de abril, onde esperam eleger um novo presidente para um mandato mais longo.
Desafios Sociais e Desigualdade
Um estudo recente do IDEA Internacional (Instituto Internacional para la Democracia y la Asistencia Electoral) aponta que as desigualdades étnicas, raciais, de gênero e de renda continuam a exacerbar as divisões sociais na América Latina. A discriminação estrutural contra povos indígenas, afrodescendentes e migrantes representa um obstáculo significativo para o desempenho democrático na região. Dessa forma, a América Latina, sem dúvida, não é um terreno fácil para iniciantes.

