Ópera: A Linguagem Universal das Civilizações
Em uma conversa reveladora, Fortunato Ortombina, diretor-geral do famoso Teatro Scala de Milão, compartilhou sua perspectiva sobre a ópera como um elo entre diferentes culturas. “Certa vez, pesquisei sobre o capitão da seleção de 1958, Hilderaldo Bellini, pensando que ele poderia ter relação com o compositor Vincenzo, de Catania”, refletiu o apaixonado torcedor da Inter, logo percebendo que a origem da família do zagueiro era do Vêneto.
Ortombina, que assumiu o comando do Scala em 2025, após um mandato na La Fenice, de Veneza, tem se mostrado um defensor fervoroso da arte lírica como um componente central na vida cultural e política de Milão. A gestão do Scala envolve um conselho colaborativo, que inclui representantes do governo municipal, do Ministério da Cultura, da Câmara de Comércio e financiadores. A abertura de sua temporada coincide com eventos de grande relevância na cidade, reforçando o papel do Scala como um ícone cultural.
No próximo ano, o Scala apresentará uma programação desafiadora, incluindo a monumental obra “O Anel do Nibelungo”, de Wagner, sob a regência da aclamada Simone Young. Essa produção promete ser um marco, contando com a destacada participação de renomados cantores como Camila Nylund, Klaus-Florian Vogt e Nina Stemme. Após a apresentação de “O Crepúsculo dos Deuses”, Ortombina já anunciou novas aberturas, como “Otello”, de Verdi, e “Um Baile de Máscaras”, também de Verdi, prometendo uma continuidade vibrante no repertório da casa.
O Desafio da Programação Teatral
Em sua reflexão sobre a complexidade de programar óperas, Ortombina pontuou: “Programar é a parte mais simples; o verdadeiro desafio é fazer tudo acontecer”. Ele destacou que, em uma estrutura com 900 colaboradores, é imprescindível estabelecer um ambiente propício para o sucesso de todos. “O teatro e a cidade estão interligados, e devemos sempre manter um diálogo ativo com a comunidade”.
A Relevância da Ópera na Contemporaneidade
Sobre a importância da ópera, Ortombina afirmou que ela é uma linguagem que ressoa em todas as civilizações. “Não há quem nunca tenha ouvido uma nota de Puccini. Mesmo os indígenas da Amazônia, de alguma forma, já tiveram contato com a música de artistas consagrados como Pavarotti”, afirmou, ressaltando como as obras operísticas influenciaram narrativas populares na TV e no cinema. Para ele, compositores como Verdi e Puccini são vistos como profetas, cujas obras ainda têm muito a revelar.
Em um tempo em que a experiência ao vivo compete com as redes sociais, Ortombina acredita que o espectador ainda valoriza o espetáculo presencial. “Os teatros na Itália estão mais cheios do que antes da pandemia. O público busca a excelência da experiência ao vivo, e o Scala é um exemplo disso”, argumentou.
Inovação na Ópera e Novas Composições
Quando questionado sobre o incentivo a obras inéditas, Ortombina compartilhou sua experiência com “O Nome da Rosa”, uma adaptação da obra de Umberto Eco, que atraiu um público significativo e esgotou os ingressos. A receptividade a novas composições traz esperança para o futuro da ópera, especialmente entre os jovens. “É fundamental encontrar maneiras de cativar o público, sem perder a essência da nossa arte”, disse.
O Papel do Brasil na Ópera Italiana
Referindo-se ao potencial do Brasil no cenário operístico, Ortombina destacava a importância de Carlos Gomes, afirmando que sua obra tem grande relevância. “O Brasil tem histórias ricas que ainda precisam ser exploradas no contexto da ópera italiana”, sugeriu, citando a possibilidade de adaptar narrativas únicas que poderiam interligar a cultura brasileira à tradição operística.
Enfrentando Desafios no Teatro Atual
Por fim, o diretor abordou os riscos que envolvem a produção teatral em tempos polarizados. “Devemos estar cientes dos riscos envolvidos. Se for um acidente, podemos superá-lo. A música, afinal, sempre encontrará seu espaço”, concluiu Ortombina, reafirmando a força da arte em tempos de incerteza.

