A Nostalgia e Seu Papel na Política Contemporânea
“Um médico, conhecido como doutor G., que atua em uma clínica geriátrica em Viena, é um verdadeiro fã dos Beatles e decidiu decorar seu consultório com o estilo dos anos 1960.” Assim começa o enredo de Refúgio do Tempo, a obra do escritor búlgaro Gueorgui Gospodinov. O protagonista, Gaustin, um psiquiatra geriátrico, transforma a nostalgia em uma ferramenta terapêutica. Ele percebe que seus pacientes, muitos dos quais lutam contra distúrbios de memória, tornam-se mais calmos e comunicativos em um ambiente decorado para refletir décadas passadas. Com essa abordagem inovadora, ele cria o que chamou de “clínica do passado”, onde cada sala é ambientada em uma época específica para auxiliar no tratamento de pessoas com Alzheimer. O sucesso do projeto rapidamente atrai a atenção de uma clientela saudável, ávida por reviver as memórias nostálgicas.
A situação desperta, então, um interesse por parte dos governos europeus, que veem a oportunidade de fomentar a ideia de que o passado — frequentemente associado ao conservadorismo e ao nacionalismo — era um período mais ideal para se viver. Nesse contexto, o que começou como um refúgio terapêutico se transforma em uma arma política.
A obra conquistou o prestigiado Booker Prize em 2023, sendo o primeiro livro búlgaro a receber tal honraria. O enredo leva o leitor a uma Bulgária dividida, onde há os que desejam retornar às décadas de 1960 e 1970, período de domínio socialista, e outros que anseiam por um sentimento de liberdade datado dos anos 1870, quando o país se libertou do domínio otomano.
A Sombra do Passado na Bulgária
Situada na instável região dos Bálcãs, que historicamente tem sido o centro de conflitos geopolíticos, a Bulgária viveu grande parte do século XX sob o domínio soviético, governada por líderes rígidos e autoritários. A presença da influência russa ainda gera debates acalorados: estátuas que homenageavam a União Soviética foram reunidas no Museu de Arte Socialista em Sófia — local que inicialmente receberia o nome de Museu de Arte Totalitária, mas que mudou sua designação após manifestações populares.
Na narrativa de Gospodinov, não há espaço para uma visão romântica desse período. Um dos pacientes da clínica, por exemplo, foi preso apenas por ser filho de um diplomata que se opunha ao regime. Outro personagem, um idoso, evita relembrar momentos traumáticos de sua vida, durante os quais foi encarcerado por motivos políticos. Apesar de enfocar a história da Europa, o autor também critica a maneira como líderes em todo o mundo utilizam o passado de forma política, sugerindo que retornar às raízes seria a solução para os problemas atuais.
Ao olhar para trás sem uma análise crítica, corre-se o risco de idealizar um passado que, em muitos aspectos, foi repleto de dificuldades. A obra de Gospodinov nos convida a refletir sobre o papel da nostalgia na política contemporânea e nos avisa sobre os perigos de uma visão romântica do passado.

