Avanço industrial aumenta demanda por qualificação
O crescimento acelerado da indústria em Pernambuco tem impulsionado a economia local e gerado novos empregos, mas traz consigo um desafio claro: capacitar os trabalhadores para as tecnologias que transformam o setor. A produção em alta, aliada ao investimento em automação e inteligência artificial, exige uma mão de obra preparada para as novas funções que surgem no mercado.
Dados da Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco (Sdec) mostram que, entre janeiro e agosto de 2026, a produção industrial do estado cresceu 13,9%, ficando atrás apenas do Espírito Santo, que registrou 17,7%. O Índice de Atividade Econômica Regional (IBCR-PE), calculado pelo Banco Central, avançou 4,85% no mesmo período, o segundo melhor resultado do país. Em agosto, o setor industrial pernambucano gerou um saldo positivo de 3.296 empregos formais, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).
Capacitação em números e setores prioritários
Esse vigor industrial aumentou a necessidade de formação especializada. Conforme o Mapa do Trabalho Industrial 2025–2027, elaborado pelo Observatório Nacional da Indústria, Pernambuco precisará de 393.494 capacitações no período, das quais 64.393 para formação inicial e 329.101 para atualização e desenvolvimento de profissionais já atuantes.
As áreas com maior demanda incluem logística e transporte, com previsão de 88.780 capacitações; construção, com 50.651; operações industriais, com 35.780; metalmecânica, com 28.745; e manutenção e reparação, com 25.363. Esses números indicam a necessidade de qualificação, não a quantidade de vagas disponíveis.
Transformação do perfil profissional
Para o economista Sandro Prado, o crescimento industrial não apenas amplia o número de empregos, mas altera o tipo de trabalho e as habilidades exigidas. A modernização dos processos produtivos demanda profissionais que dominem equipamentos digitais, sistemas automatizados e análise de dados.
Segundo Prado, a procura cresce por técnicos em manutenção, especialistas em logística, engenheiros, profissionais de automação, analistas de dados e operadores de equipamentos avançados. Ele alerta que as dificuldades para contratar não decorrem só da falta de qualificação, mas também de questões como localização das vagas, remuneração, condições de trabalho, horários e exigência de experiência.
“Errado é atribuir toda a dificuldade à falta de qualificação”, afirma Prado. A formação deve preparar os trabalhadores para as funções atuais e para as que surgirão com a evolução da indústria.
Exemplos práticos de qualificação no setor
Empresas em Pernambuco já enfrentam essa mudança no perfil profissional. No Complexo Industrial Portuário de Suape, cresce a demanda por especialistas em automação industrial, mecatrônica, inteligência artificial e análise de dados.
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Fonte: aquidesalvador.com.br
Armando Reis Peixoto Filho, diretor de Desenvolvimento e Gestão Industrial de Suape, destaca que o Censo Suape 2024, realizado com cerca de 90 empresas, apontou dificuldades específicas de contratação em algumas áreas, mas não uma escassez generalizada.
“A automação reduz tarefas manuais e repetitivas, aumentando a demanda por quem sabe operar e interpretar sistemas digitais”, explica.
No terminal da APM Terminals, que usa equipamentos eletrificados e sistemas automatizados, a empresa investiu em capacitação em parceria com o Senai. O foco foi preparar trabalhadores para operar equipamentos específicos, além de oferecer formação em comércio exterior e manutenção.
Outro destaque é o projeto Qualidade Produtiva, da MCM Engenharia Industrial, sediada em Escada, Zona da Mata Sul. O programa oferece cursos gratuitos para moradores das comunidades próximas, visando ampliar as oportunidades e desenvolver habilidades técnicas e sociais, além de atualizar profissionais da empresa.
Desde 2022, 422 pessoas foram formadas pelo projeto, com cerca de 130 contratadas pela MCM. Entre os cursos estão soldagem, caldeiraria, mecânica industrial, tubulação, desenho técnico e montagem de painéis elétricos, incluindo uma turma exclusiva para mulheres.
História de sucesso e adaptação
Elaynne Catarina é exemplo da transformação que a qualificação pode proporcionar. Ela começou na caldeiraria, participou do projeto Qualidade Produtiva e depois migrou para o setor elétrico. Após uma formação rápida online e curso NR-10, tornou-se montadora de painéis elétricos.
Elaynne precisou aprender desde a identificação de cabos e terminais até entender especificações técnicas. Adaptar-se a um ambiente predominantemente masculino exigiu que ela comprovasse sua capacidade constantemente.
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Fonte: olhardanoticia.com.br
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Fonte: londrinagora.com.br
Um momento decisivo foi quando recebeu a responsabilidade de montar um painel sozinha. Apesar da insegurança inicial, conseguiu concluir a tarefa em uma semana. “Foi um desafio que mudou minha vida, me tornando uma versão melhor de mim mesma”, relata.
Preparação para a indústria tecnológica
Além das empresas, instituições de ensino profissional buscam acompanhar as mudanças. O Senai Futuro identifica competências emergentes e atualiza seus cursos para atender às novas demandas.
Felipe Furtado, gestor do Senai Futuro, destaca a inteligência artificial como ferramenta para tornar processos industriais mais eficientes, permitindo antecipar problemas e analisar grandes volumes de dados.
O Senai oferece cursos como Integração de Sistemas Industriais com Inteligência Artificial, voltado para coordenadores de manutenção, engenheiros e técnicos industriais, visando a atualização constante dos profissionais.
“A atualização contínua é fundamental para que as indústrias aumentem a produtividade e permaneçam competitivas em um mercado tecnológico”, afirma Furtado.
Automação transforma tarefas, não elimina profissões
Sandro Prado reforça que a automação não extingue profissões, mas transforma as tarefas dentro delas. O desafio é garantir que os trabalhadores possam assumir essas novas funções e se beneficiar dos avanços em produtividade.
Ele destaca que a qualificação deve ser uma responsabilidade compartilhada: o Estado cria as condições, as instituições formam e as empresas investem no desenvolvimento necessário.

