Resiliência da economia brasileira diante das tarifas dos EUA
Em um cenário de crescente tensão comercial entre Brasil e Estados Unidos, o Fundo Monetário Internacional (FMI) avalia que a economia brasileira tem apresentado uma resiliência notável. Mesmo diante do chamado “tarifaço” imposto pelos EUA, o Brasil conseguiu minimizar seus impactos graças a uma série de fatores internos e externos.
Segundo o relatório da consulta anual do Artigo IV do FMI, as exportações brasileiras mantiveram-se firmes, apesar das tarifas elevadas aplicadas pelos Estados Unidos. Além disso, o déficit em conta corrente do país registrou uma leve redução, chegando a 2,9% do Produto Interno Bruto (PIB) projetado para 2025. O FMI também revisou para cima a projeção de crescimento do PIB brasileiro, estimando um avanço de 2,4%, impulsionado principalmente pelos altos preços do petróleo e pela expressiva participação das fontes renováveis na matriz energética nacional.
Fatores que sustentam a estabilidade econômica
Caio Vilella, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e diretor do Instituto de Finanças Funcionais para o Desenvolvimento (IFFD), destaca três elementos essenciais para explicar essa resiliência na relação comercial entre Brasil e Estados Unidos. Embora ele não detalhe esses fatores individualmente no texto, ressalta que eles formam um quadro geral que ajuda a compreender a capacidade do país de enfrentar as barreiras comerciais impostas.
Complementando essa análise, Francisco Marzinotto, doutor em economia política internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professor da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), aponta que a diversificação dos parceiros comerciais fortalece a reação da economia brasileira, mas não elimina por completo suas vulnerabilidades. Para ele, embora o Brasil possa depender menos dos EUA, ainda está sujeito a riscos que podem migrar para outras áreas, como a financeira e a tecnológica.
Marzinotto destaca que a capacidade do país em conter os efeitos da alta internacional dos preços de alimentos e combustíveis foi crucial para manter o abastecimento interno. “A gente perde na quantidade, mas ganha no preço”, afirma, ressaltando que essa dinâmica foi fundamental para conter a inflação, mesmo que não tenha impulsionado diretamente a economia.
Leia também: Crescimento de 131% no consumo de cranberries impulsiona economia brasileira
Fonte: olhardanoticia.com.br
Leia também: Taiwan: Crescimento Econômico em Meio à Queda Populacional e Desafios Ambientais
Fonte: indigenalise-se.com.br
Outro ponto crucial, segundo o economista, é a autonomia energética do Brasil, que é exportador líquido de petróleo e possui uma matriz energética com alta participação de fontes renováveis. Essa estrutura oferece uma camada extra de proteção contra choques energéticos internacionais, como os decorrentes da guerra no Oriente Médio, conforme destacado pelo FMI.
Medidas do governo e lições do tarifaço inicial
Durante o primeiro impacto das tarifas, em 2025, o governo federal, em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), adotou estratégias para minimizar os efeitos nos setores mais afetados. O Plano Brasil Soberano proporcionou linhas de crédito para empresas exportadoras atravessarem o período mais crítico, enquanto o país buscava abrir novos mercados e redirecionar suas exportações.
Caio Vilella ressalta que, apesar da importância dessas medidas, o plano teve caráter mais de contenção dos danos do que de estímulo ao crescimento econômico. Para ele, o verdadeiro pilar da resiliência é a política fiscal adotada nos anos anteriores, que sustentou a demanda interna e manteve um ritmo estável de crescimento.
Entretanto, essa política fiscal perdeu força recentemente com o corte de gastos públicos e a manutenção de juros elevados. Essa combinação pode prejudicar o dinamismo do mercado interno, apontado como principal motor do PIB, e limitar o crescimento econômico nos próximos anos.
Marzinotto reforça que a combinação entre política fiscal e monetária foi decisiva para mitigar os efeitos das tarifas. Juros altos ajudaram a estabilizar expectativas e a reduzir a volatilidade cambial, enquanto os investimentos públicos e programas sociais mantiveram o consumo, o emprego e a atividade econômica. Sem esse ambiente, os impactos do tarifaço poderiam ter sido mais severos, com desaceleração do PIB, queda nos investimentos e maior instabilidade financeira.
Riscos e vulnerabilidades ainda presentes
Apesar da capacidade de reação, especialistas alertam que o Brasil ainda enfrenta riscos significativos, sobretudo se as pressões dos Estados Unidos se deslocarem para outros setores da economia. Caio Vilella destaca que a maior vulnerabilidade está no campo financeiro, onde a influência americana sobre fluxos internacionais de capitais e o sistema financeiro brasileiro pode ser mais contundente.
Ele cita a ameaça de desligamento do Brasil do sistema SWIFT como exemplo de possível pressão financeira que afetaria profundamente a economia nacional.
Francisco Marzinotto amplia esse diagnóstico, apontando que Washington também dispõe de armas geoeconômicas além das tarifas, como restrições ao acesso a tecnologias estratégicas, incluindo GPS, e bloqueios a serviços digitais e computação em nuvem. Isso indica que a capacidade de coerção econômica dos EUA sobre o Brasil persiste, ainda que seja menor do que seria em uma economia altamente dependente do mercado americano.
Assim, a economia brasileira segue demonstrando resistência diante das barreiras comerciais, mas precisa estar atenta aos desafios que podem surgir em outras frentes, principalmente no setor financeiro e tecnológico, que podem impactar renda, preços e empregos no futuro próximo.

