Desafios na Implementação dos Direitos dos Pacientes
Por Lucas Rosa Dohmen — O recém-aprovado Estatuto dos Direitos do Paciente traz consigo uma proposta significativa: consolidar uma série de direitos que já existiam, mas que frequentemente estavam fragmentados em diferentes legislações, dificultando o acesso da população a essas informações essenciais.
Entre os direitos destacados pela nova legislação, podemos mencionar o acesso à informação clara sobre diagnósticos e tratamentos (art. 12), o consentimento informado (art. 14), a possibilidade de acessar o prontuário médico (art. 19) e a participação ativa do paciente nas decisões relacionadas à sua saúde (art. 11). Além disso, a nova lei assegura o respeito à privacidade e à confidencialidade das informações (arts. 15 e 16).
No entanto, na prática, muitos desses direitos já eram reconhecidos por outras legislações, como o Código de Defesa do Consumidor e as diretrizes éticas da área da saúde. Assim, a nova lei, embora cumpra um papel importante de organização e reforço das normativas existentes, não representa uma transformação estrutural que o sistema realmente necessita. Isso levanta uma questão crucial: se esses direitos estão assegurados há tanto tempo, por que ainda são tão frequentemente desrespeitados?
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A Importância da Informação para a Autonomia do Paciente
A falta de informação adequada impede que os pacientes exerçam sua autonomia. Sem o respeito às prescrições médicas, a real possibilidade de acesso a tratamentos torna-se ilusória. E, quando o acesso é comprometido, a dignidade do paciente também é prejudicada, mesmo que essa dignidade esteja formalmente garantida.
Atualmente, não são raros os casos em que pessoas necessitam recorrer ao sistema judiciário para obter tratamentos, exames ou medicamentos que deveriam ser disponibilizados por seus planos de saúde. Mesmo quando há uma decisão judicial favorável, a execução desse direito pode ser demorada ou até incompleta, resultando em consequências irreversíveis para a saúde do paciente.
A nova lei aborda mecanismos de implementação (art. 23) com foco em medidas como a divulgação de informações, a realização de pesquisas e a coleta de reclamações. Embora esses passos sejam relevantes, eles não equipam os pacientes com ferramentas eficazes para garantir que seus direitos sejam respeitados diariamente.
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Consequências da Falta de Cumprimento dos Direitos
Os impactos dessa realidade vão além do paciente individualmente considerado. Quando um plano de saúde não cumpre suas obrigações, muitos acabam por recorrer ao Sistema Único de Saúde (SUS) como alternativa. Isso provoca uma sobrecarga no sistema público, que passa a atender demandas que deveriam ser cobertas pela saúde privada.
É fundamental lembrar que o direito à saúde é um dever do Estado, que se torna compartilhado com as operadoras de saúde no caso da saúde suplementar. Quando esse modelo falha, o resultado é uma distorção, onde o custo recai sobre o sistema público ou diretamente sobre o paciente, que arca com as consequências da ineficiência.
Além disso, discussões sobre melhorias estruturais no setor — como a atualização das normas que regem os planos de saúde e a criação de mecanismos mais efetivos para fiscalização e responsabilização — ainda avançam lentamente no Brasil.
Reflexões sobre a Nova Lei dos Direitos do Paciente
Diante deste panorama, a nova Lei dos Direitos do Paciente deve ser encarada como um marco significativo, principalmente do ponto de vista formal. Contudo, seu impacto prático ainda é limitado. Ela reitera direitos, mas não aborda, de maneira direta, o principal desafio do sistema de saúde: assegurar que esses direitos sejam efetivamente respeitados.
No fim das contas, reconhecer direitos no papel não é suficiente. O verdadeiro progresso se concretiza quando esses direitos são respeitados na prática — um objetivo que ainda demanda mudanças profundas, especialmente nas áreas de fiscalização, regulação e responsabilização. Somente assim poderemos garantir que todos tenham acesso à saúde de maneira digna e justa.

