Guardião da ancestralidade no Quilombo Castainho
Na zona rural de Garanhuns, no agreste pernambucano, a mestra Zeza do Coco abre as portas do Quilombo Castainho para visitantes interessados em conhecer essa rica história que remonta ao século XVII. Maria José Lopes Isídio, conhecida como Zeza, carrega a tradição quilombola por meio do samba de coco, cantando sobre a relação intrínseca entre cultura e natureza, especialmente a importância da mandioca no cotidiano da comunidade.
Zeza não está sozinha nessa luta. Mulheres como ela, Edivane Lopes e Aparecida Nascimento Oliveira, que atuam no Quilombo Estivas, também na zona rural de Garanhuns, têm papel central na busca por justiça social e ambiental. Essas lideranças integram a Associação de Mulheres Guerreiras Quilombolas do Castainho e o Coletivo de Mulheres Negras Flores de Dandara, que promovem autonomia financeira e preservação cultural.
O Quilombo Castainho e seus desafios
Ao entrar no Espaço Cultura Mestra Zeza do Coco, a imagem de Maximina Lopes, avó de Zeza, destaca-se na parede como símbolo da resistência feminina que moldou a comunidade. Maximina, embora talentosa, preferia não cantar em público – um desafio que Zeza também enfrentou no começo. Com apoio da comunidade, a mestra ganhou confiança, e o espaço cultural hoje oferece aulas de percussão e capoeira para os jovens locais.
A mandioca é mais do que alimento; é parte da identidade do Castainho. Em parceria com o Sebrae, a associação local trabalha para resgatar receitas tradicionais que valorizam esse cultivo essencial. Esse trabalho evidencia a interdependência entre cultura, economia e meio ambiente na comunidade.
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Fonte: cidaderecife.com.br
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Fonte: curitibainforma.com.br
Com cerca de 350 famílias, o Quilombo Castainho está a 5 km de Garanhuns e a 230 km do Recife. É um dos poucos territórios parcialmente titulados em Pernambuco, ao lado do Quilombo Conceição das Crioulas, em Salgueiro. Apesar disso, a luta por políticas públicas efetivas permanece constante. A coordenadora Edivane Lopes critica a visão estereotipada da cidade como “suíça pernambucana”, que, segundo ela, tenta apagar a identidade quilombola e perpetua o racismo institucional. Além disso, ela destaca os impactos das mudanças climáticas, que afetam a produção de mandioca e agravam a insegurança territorial da comunidade.
Resistência e protagonismo no Quilombo Estivas
Também em Garanhuns, o Quilombo Estivas abriga cerca de 220 famílias que enfrentam desafios semelhantes, como a ausência de titulação definitiva e ameaças às lideranças locais. O território está em processo de delimitação, aguardando a publicação do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTDI). Marinho da Estiva, agente comunitário de saúde e coordenador nacional da Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas), denuncia o racismo estrutural e as intimidações sofridas, incluindo tentativas de invasão das casas de líderes.
Um exemplo da exclusão é a prioridade dada a obras para uma vinícola recém-instalada, enquanto a comunidade espera por melhorias históricas nas estradas. Em meio a essas dificuldades, as mulheres do Quilombo Estivas assumem um papel de destaque. Aparecida Nascimento Oliveira coordena o Coletivo de Mulheres Negras Flores de Dandara, que reúne cerca de 70 integrantes em atividades como artesanato, gastronomia, costura, dança, música e percussão, realizadas no Espaço Agroecológico Dona Mira, em homenagem a outra liderança feminina.
Clima, gênero e cultura em diálogo
Aparecida ressalta as mudanças no clima local, com o aumento das temperaturas e a perda dos tradicionais “friozinhos” de Garanhuns, o que impacta a vida e a agricultura da comunidade. O protagonismo feminino no Quilombo Estivas fortalece a conexão entre as questões climáticas e a luta por equidade de gênero, ampliando o debate para além do ambiental.
Além das atividades culturais, o projeto de defesa do bem-viver inclui um biodigestor piloto instalado na residência de Rosa da Silva Santos e Vicente Pereira dos Santos, mostrando caminhos sustentáveis para a comunidade e buscando recursos para expandir o projeto.
Um dos momentos simbólicos durante a Caatinga Climate Week foi o plantio coletivo de uma muda de baobá, árvore sagrada nas culturas de matriz africana, conhecida por armazenar até 120 mil litros de água em seu tronco. Essa ação reforça os laços entre ancestralidade, cultura e cuidado ambiental.
A visita aos quilombos de Garanhuns integra iniciativas como a Caatinga Climate Week, evento que reuniu entre 1° e 3 de julho experiências de povos tradicionais do bioma, destacando suas soluções climáticas e socioculturais. O Instituto Socioambiental (ISA) apoiou a participação do repórter Micael Olegário, que acompanhou essa imersão.

