O Resgate das Sementes Crioulas
Há mais de três décadas, Rosana Martuchelli Nogueira, aos 17 anos, começou a notar as mudanças que afetavam o Vale dos Lúcios, em Teresópolis (RJ). Filha de agricultores, ela presenciou de perto o empenho de seus pais em conservar as sementes que cultivavam a cada safra. “Quando meu pai ia plantar feijão, ele pegava as sementes guardadas no armário e usava o restante para a mesa. As sementes não estragavam, e ele sempre dizia que era por conta do ‘pó’ de onde elas vieram”, conta Rosana, enfatizando a conexão ancestral com a terra.
Essa prática, que seu pai realizava intuitivamente, foi confirmada por estudos da Embrapa, que revelaram a presença de um microrganismo protetor. “Descobrimos que esse microrganismo ajuda a proteger o feijão e o milho do caruncho. Meu pai estava no caminho certo, mesmo sem saber”, acrescenta Rosana.
A Luta pela Preservação Genética
Aos 51 anos, Rosana se tornou uma guardiã de um legado: a preservação de sementes ancestrais de milho e feijão, que não foram submetidas aos processos de melhoramento genético que geram híbridos e transgênicos. Esses produtos, frequentemente patenteados, obrigam os agricultores a recomprar sementes a cada nova safra. Essa realidade a incomodava, especialmente com a crescente popularização de híbridos na sua região. Assim, iniciou um movimento para resgatar as sementes crioulas, uma prática que se mantém firme até os dias atuais.
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A mil quilômetros de distância, em Palmeira (PR), outra agricultora, Ana Andréa Jantara, compartilha da mesma inquietação. “Percebi que as sementes crioulas estavam se tornando cada vez mais raras. Isso me motivou a criar meu banco de sementes, para garantir que meus filhos possam ter acesso a esses alimentos”, explica Ana, que atualmente conserva mais de 200 variedades de grãos, legumes e hortaliças. Sua dedicação a levou a se tornar uma referência local, sendo procurada por agricultores que desejam preservar suas próprias sementes.
A Importância das Sementes Crioulas
Leandro Barradas, engenheiro agrônomo e professor na Escola Técnica Estadual de Andradina, ressalta a relevância dessas variedades. De acordo com ele, as sementes crioulas são fundamentais por sua rusticidade e adaptação ao ambiente onde foram selecionadas ao longo das gerações. Além disso, elas oferecem autonomia aos agricultores. “As sementes híbridas ligam os agricultores a pacotes tecnológicos que aumentam os custos de produção. Enquanto o plantio de milho transgênico na região de Andradina pode custar entre R$5.000 e R$6.000 por hectare, o milho crioulo, em um sistema agroecológico, tem um custo que varia de R$1.000 a R$2.000”, explica Barradas.
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Essa diferença de custos reflete não apenas na sustentabilidade financeira dos produtores, mas também na preservação cultural e no fortalecimento da diversidade alimentar. Cada semente é como um pedaço da história de um povo e de suas comunidades.
O Valor das Sementes para o Futuro
O trabalho de Rosana e Ana Andréa ilustra a luta pela conservação da biodiversidade e dos saberes ancestrais. As sementes crioulas não são apenas alimentos; são símbolos da resistência cultural e da identidade alimentar de regiões inteiras. Com um olhar voltado ao futuro, essas agricultoras se tornam verdadeiras guardiãs do patrimônio agrícola, preservando a rica diversidade alimentar do Brasil e assegurando que as próximas gerações tenham acesso a um legado valioso. A união entre tradição e saberes modernos pode garantir que a agricultura familiar continue a prosperar e que a cultura alimentar do país se mantenha vibrante e diversificada.

