A Evolução da Masculinidade em Tempos de Crise
Em novembro de 2025, um estudo realizado por Julie C. Ricard e sua equipe na Fundação Getúlio Vargas trouxe à tona um panorama detalhado de um fenômeno muitas vezes considerado uma subcultura marginal da internet. A pesquisa revelou 85 comunidades da machosfera brasileira no Telegram, unindo mais de 220 mil usuários e cerca de 7 milhões de conteúdos desde 2015.
A análise longitudinal demonstrou um crescimento impressionante no volume de conteúdos nessas comunidades, que aumentou quase 600 vezes entre 2019 e 2025, especialmente no período pós-pandemia. Esse ambiente se consolidou como um canal massivo para a difusão de narrativas masculinistas, ressentimento de gênero e hostilidade em relação às mulheres. As comunidades se organizam em diversas camadas discursivas: algumas adotam uma postura abertamente misógina, enquanto outras se apresentam como espaços de desenvolvimento pessoal masculino, finanças ou debates culturais. Entretanto, o repertório dessas comunidades converge para um conjunto relativamente consistente de ideias, como a vitimização masculina, críticas ao feminismo, teorias sobre o mercado sexual e a guerra cultural contra o que chamam de ideologia de gênero.
É importante ressaltar que esse fenômeno não se restringe à extrema direita. A linguagem de vitimização masculina, a alegação de perseguição cultural e a crítica sistemática às pautas de gênero começaram a se espalhar por campos ideológicos diversos. O resultado é que certos repertórios da machosfera começaram a emergir também em ambientes progressistas, ainda que com justificativas e tonalidades políticas distintas.
Essa circulação não implica equivalência ideológica entre os campos, mas revela uma gramática masculina compartilhada, capaz de atravessar divisões políticas quando a masculinidade é vista como ameaçada. A filósofa Judith Butler, em seu livro “Problemas de Gênero”, oferece uma chave para entender esse fenômeno. Para ela, o gênero não é uma essência, mas uma performance que precisa ser reiterada continuamente para se manter. Quando essa reiteração é ameaçada, seja por críticas feministas, transformações culturais ou novas configurações de poder, a resposta muitas vezes se traduz em uma reafirmação intensificada e, por vezes, violenta, da identidade ameaçada. Nesse contexto, a machosfera pode ser vista como um indicador de uma masculinidade em crise que busca se reconstituir coletivamente.

