Impacto da mudança na escala 6×1 sobre o mercado de trabalho em Pernambuco
Pernambuco enfrenta a possibilidade de perder cerca de 49.866 postos de trabalho formais caso a escala 6×1 deixe de ser adotada. A redução prevista representa uma queda mensal de R$ 114,19 milhões em salários e um risco de R$ 554,9 milhões anuais na arrecadação tributária do estado. Essas estimativas fazem parte de um estudo divulgado pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Pernambuco (Fecomércio-PE), em colaboração com a Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe) e a Federação das Empresas de Transporte de Cargas do Nordeste (Fetracan).
O levantamento foi realizado ao longo de três meses, utilizando dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de dezembro de 2025. Considerando os 2,06 milhões de vínculos formais no estado, o estudo destaca que 1,24 milhão destes trabalhadores cumprem jornadas superiores a 40 horas semanais. Mais de 60% desses vínculos estão enquadrados na escala 6×1, concentrados principalmente nos setores de comércio, com 320 mil vínculos, e serviços, com 539 mil.
PEC que reduz jornada pode ser votada no Senado em breve
A divulgação do estudo ocorre em um momento decisivo no Senado Federal, onde a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019 está prestes a ser votada. Essa proposta reduz a jornada máxima de trabalho de 44 para 40 horas semanais em 14 meses, sem redução dos salários. A PEC já foi aprovada pela Câmara dos Deputados em 27 de maio, com ampla maioria de 461 votos favoráveis contra 19.
No Senado, o relator da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), Omar Aziz (PSD-AM), apresentou parecer favorável ao texto da Câmara, rejeitando as 12 emendas propostas por outros senadores. A expectativa é que a CCJ vote o parecer em 2 de agosto, com previsão de que a matéria siga para o Plenário, onde precisa de pelo menos 49 votos favoráveis em dois turnos. Aliados do governo tentam acelerar a votação, inclusive dispensando o intervalo regimental entre os turnos, para que o processo ocorra ainda nesta semana, antes do período eleitoral de outubro.
Pressão nacional contra a aprovação antes das eleições
Paralelamente, uma campanha liderada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), com apoio de 34 federações e sindicatos, incluindo a Fecomércio-PE, alerta para os riscos da aprovação da PEC neste momento. Com o slogan “A conta já está alta demais. Mudança das regras do trabalho às vésperas da eleição? Agora não”, o movimento destaca os desafios econômicos atuais, como juros elevados, crédito caro, endividamento recorde das famílias e inadimplência alta entre empresas.
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Bernardo Peixoto, presidente da Fecomércio-PE, reforça que a decisão precisa ser baseada em dados concretos e não em pressa política. Ele defende que o Senado adie a votação para após as eleições, garantindo um debate mais técnico e fundamentado. “Temos que esperar um pouco, passar as eleições e fazer um trabalho com documentos e levantamentos reais para tomar uma decisão mais correta”, afirma.
O estudo será compartilhado com deputados e senadores de Pernambuco para subsidiar a discussão. Maurício Laranjeira, gerente de política industrial da Fiepe, ecoa a importância de um debate técnico e já relata que ofícios com as análises foram enviados a parlamentares e autoridades estaduais.
Dois cenários para a mudança na jornada de trabalho
O levantamento da Fecomércio-PE explora dois cenários possíveis diante da reformulação da jornada. No Cenário A, a jornada semanal cai de 44 para 40 horas, mantendo o salário nominal. A análise técnica usa o conceito de elasticidade emprego-custo, que indica que cada 1% de aumento no custo da mão de obra reduz o emprego em 0,4%. Aplicando isso, a estimativa central é o fechamento de 49.866 vagas formais, variando entre 18.700 e 87.265, dependendo do cenário econômico, com perdas salariais e tributárias significativas.
No Cenário B, a jornada permanece em 44 horas, mas o 6º dia de trabalho passa a ser pago como hora extra, com adicional de 100%. Embora não preveja perda imediata de renda, caso acordos coletivos resultem em redução salarial para compensar os custos, o impacto no consumo pode ser severo, com uma retração estimada em R$ 2,33 bilhões ao ano no estado.
Setores e ocupações mais vulneráveis à mudança
O estudo destaca as ocupações mais afetadas, lideradas por vendedores no comércio varejista (21.237 vínculos), assistentes administrativos (19.661), auxiliares de escritório (15.057) e faxineiros (14.895). Setores como fornecimento e gestão de recursos humanos para terceiros, construção de edifícios e supermercados são os mais expostos, com altos percentuais de trabalhadores em escala 6×1.
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Fonte: soupetrolina.com.br
A recomendação principal é fortalecer a negociação coletiva por segmento, pois os cortes tendem a recair sobre ocupações e empresas com menor margem, especialmente no setor terciário. A CNC defende que a solução seja acordada via convenções coletivas, prática comum que já permite jornadas inferiores a 44 horas em setores específicos.
Indústria e transporte também enfrentam impactos relevantes
Pesquisa da Fiepe indica que 84% das indústrias pernambucanas esperam aumento significativo nos custos com a mudança na jornada, estimando um impacto de 12% no custo da mão de obra, conforme dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Maurício Laranjeira reforça que a negociação coletiva já permite jornadas menores em alguns setores industriais.
No transporte, o presidente da Fetracan, Nilson Gibson Sobrinho, alerta para a alta no custo do frete, que pode subir 28,7% com o fim da escala 6×1. Ele destaca ainda os desafios logísticos do estado, citando o trecho entre Muribeca e Goiana, que leva mais de quatro horas para ser percorrido, evidenciando a magnitude dos custos Brasil no setor.
Assim como as demais entidades, a Fetracan também solicita que a votação da PEC seja adiada para depois das eleições, para garantir uma análise cuidadosa e evitar impactos econômicos desnecessários neste momento sensível.

